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O desafio de construir um carrinho de rolimãs

Por Marçal Rogério Rizzo
30 de setembro de 2018
Marçal Rogério Rizzo (Economista e Professor da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)
Tinha aproximadamente 9 anos de idade. Saí da escola e desci pela rua para ir até o ponto de ônibus que era pertinho, mas no portão da escola encontrei dois colegas conversando e segurando um carrinho de rolimãs nas mãos. Logo parei para me juntar à dupla e notei que aquele carrinho tinha coisas diferentes: parafusos em vez de pregos e borrachas que serviam como uma espécie de amortecedor; no guidão, um pedaço de borracha de pneu, que servia de freio. Questionei sobre quem havia feito um carrinho tão legal, e um dos colegas respondeu que fora o seu irmão mais velho. Conversei mais um pouco e logo me despedi para não perder o ônibus que me levaria até a entrada do sitio onde morava. Sabia que, se demorasse, minha irmã ficaria muito brava e que, se perdesse o ônibus, poderia tomar algumas cintadas.
Saí com a ideia fixa de construir um carrinho de rolimãs. Gostava de mexer com ferramentas, pregos e parafusos. Logo vieram a minha cabeça formas e fórmulas para construir meu próprio carrinho de rolimãs. Àquela época, carrinhos de rolimãs eram algo comum; a molecada construía e brincava sem medo algum, no máximo tomando esfregões e arranhões. Não existiam tantos automóveis, motos, buracos e bandidos nas ruas. A rua era um espaço comum de socialização, que podia ser frequentada por crianças e adolescentes, e ali se andava de carrinho de rolimãs. As ruas ideais eram as mais lisas e com ladeiras, onde se realizavam campeonatos informais com esses brinquedos.
Para a construção do meu carrinho, fui em busca dos rolamentos de aço, conhecidos por rolimãs, e da madeira. Precisava de três rolamentos, um maior para colocar na frente e dois menores para utilizar no eixo traseiro. Planejar o tempo e espaço a ser percorrido foi necessário. Quando acabava a aula, tinha um tempo até o ônibus chegar; não era muito, mas bastava para ir às oficinas mecânicas nas proximidades da escola onde estudava.
E lá fui eu! Cheguei À primeira oficina mecânica, que consertava máquinas agrícolas e era nos fundos da escola, e perguntei a um senhor se tinha algum rolimã que tivesse sido descartado naquele dia. Ele me disse que olhasse em um tambor azul que estava no canto do salão, e foi o que fiz. Olhei, remexi e logo encontrei um rolimã que poderia servir para o eixo frontal; era dos grandes. Logo vi que não daria para seguir para outra oficina naquele dia, senão perderia o horário do ônibus. Deixei a tarefa para os próximos dias. E foi o que fiz: visitei uma oficina por dia nas proximidades da escola e, no quarto dia, consegui fechar os outros rolimãs de que necessitava.
Agora o desafio era conseguir a madeira. No sítio em que morava, havia muitas madeiras, mas eram extremamente duras e pesadas. Até para fazer um furo ou bater um prego era difícil. Mas, sonho é sonho e o desafio de construir meu carrinho seguia em mente. Precisava da base e dos dois eixos. Procurei por todo o sítio e encontrei uma janela antiga e desativada, que serviria de base para o carrinho; e isso já me animou. Agora faltavam somente os dois eixos. 
Num sábado, expus ao meu pai a ideia, e ele apareceu com os dois pedaços de madeira que se tornariam os eixos de que precisava. No domingo, peguei o serrote, o arco de pua, o martelo, o facão, os pregos e um parafuso francês que achei na caixa de ferramentas do meu pai e me pus a fazer o carrinho de rolimã. Serrei, furei, preguei e parafusei – e assim nasceu meu “produto”. 
Estava pronto para ser usado, mas onde andar? No sítio, as estradas são de terra; e levar o carrinho até a cidade era tarefa difícil. Logo me lembrei do terreiro que era usado para a secagem de café e lá fui eu. Era um cimento liso, porém era plano e dessa forma não havia graça em usar o carrinho de rolimãs. Ladeiras é que davam emoção. Do mesmo modo, carrinho de rolimãs, assim como outros brinquedos, só são bons em grupo e, como estava sozinho, naquele dia não houve a mínima graça.
É curioso que nessa passagem, mesmo ainda criança, aprendi que os atos de sonhar, planejar, ir em busca dos materiais e construir são mais prazerosos do que o ato de usufruir, em especial quando estamos sozinhos. 
Para os leitores, apenas posso reafirmar que na minha infância as ruas eram mais democráticas, eram feitas para além passagem de carros. Eram espaços para brincar e andar sem medo. Pobres de nossas crianças de hoje!

Marçal Rogério Rizzo 
(Economista e Professor da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)