quarta 14 abril 2021
Arquibancada

Nos campos do céu

Ainda diante de um cenário de dor e de tristeza pela tragédia com o voo que levava a Chapecoense para a disputa da final da Copa Sul-Americana, destaca-se a essência de um verdadeiro campeão, a interrupção do sonho de vários profissionais e o aprendizado que o acidente deixa ao mundo.
Em um ambiente esportivo contaminado por atos de violência entre torcedores rivais, por manobras financeiras desleais e por atos de corrupção, a dignidade do Atlético Nacional impressiona e emociona. As diversas atitudes tomadas pelo clube e pelo povo colombiano servem para renovar os mais nobres e importantes valores pertencentes a cada um dos verdadeiros amantes do futebol.
Desastres, infelizmente, acontecem todos os dias. Mas o acidente aéreo aconteceu em um cenário especial, não só por ter deixado 71 vítimas. Quando eles envolvem o futebol sempre chocam, pois há uma linha muito tênue que separa esporte, alegria, emoção e vitória. Além disso, a aeronave, cuja função era transportar sonhos a Medellín, teve seu ponto final justamente no melhor momento da carreira da equipe catarinense.
Desde que iniciou sua ascensão meteórica em nível nacional, o Verdão d’Oeste vinha mostrando que é possível construir bons times sem gastar milhões de reais, por meio de uma administração séria e transparente. Com organização e planejamento, sempre cumpriu o que foi combinado, não atrasou salários e, principalmente, nunca investiu mais do que recebeu. A Chape já tinha ultrapassado a esfera de time de Série A e preparava voos para se tornar uma equipe reconhecida fora do país.
O sofrimento jamais vai desaparecer. Aliás, não há contagem regressiva da dor à estaca zero. Aos poucos, o sentimento vai ser esfriado com o tempo. As diversas homenagens feitas à Chapecoense foram brilhantes. Porém, o clube precisa de atitudes concretas para se reconstruir, seja por meio de ajuda psicológica, espiritual e/ou financeira. 
A CBF, principal órgão do futebol local, deu míseros R$ 5 milhões. Muito pouco, neste contexto, para uma instituição milionária. Até os clubes brasileiros já se colocaram a disposição para emprestar jogadores e arcar com os salários. Bem interessante, até o momento em que nomes de baixo escalão são disponibilizados. Bom senso é fundamental. Não se pode esquecer que o time de Santa Catarina perdeu um elenco de qualidade e não 19 “pernetas”.
Poucas vezes chorei por causa do futebol. A função de qualquer jornalista é ter equilíbrio para relatar o que acontece, com imparcialidade e criticidade. Porém, o que ocorreu no dia 29 de novembro fez lágrimas caírem absurdamente em todos nós. Algumas, inclusive, vieram do céu, no dia do velório coletivo.
A tragédia deixa aprendizado. Se o cenário futebolístico era marcado mais pela violência a competitividade, chegou o momento de mudar. É hora de maior solidariedade, maior união entre clubes e entidades e menos ódio entre os rivais. Se isso não foi possível na alegria, que seja na tristeza.

Lucas Colombo Rossafa
 (jalesense, aluno do 2°ano de jornalismo da  PUC/Campinas) 

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