quarta 14 abril 2021
Arquibancada

Não será fácil

O conturbado ano do São Paulo apenas parecia caminhar para os capítulos finais. Durante a semana, Ricardo Gomes foi desligado do comando técnico, depois do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, ter garantido a permanência do treinador na temporada seguinte.
A decisão de demiti-lo aconteceu porque concluíram que ele não era o nome ideal para 2017. Incrível como o discurso da cúpula paulista mudou drasticamente em menos de dez dias. Muitos torcedores tiveram a ilusão de que ele iria levar o clube à Libertadores, mesmo sem jogadores de qualidade. Em 18 jogos desde que foi contratado, foram seis vitórias, cinco empates e sete derrotas, aproveitamento pouco superior 40%.
A ideia da direção do Tricolor é iniciar o planejamento para o próximo ano de imediato. Para isso, a escolha de um comandante é fundamental. E já há um nome: Rogério Ceni, que fechou vínculo por dois anos. Antes da questão técnica, é preciso lembrar-se do aspecto político. Em abril, o São Paulo terá eleição presidencial, e o atual mandatário será candidato à reeleição da situação. Após erros e fracassos acumulados nas gestões dos últimos anos, Leco aposta no principal ídolo do clube para conquistar a simpatia de conselheiros (leia-se votos) e acalmar os ânimos do torcedor.
É claro que a nação são-paulina terá paciência quadruplicada com Ceni, caso haja dificuldades para implantar a sua filosofia de trabalho. Contudo, toda diretoria, independente do time, ao fazer uma contratação, analisa o perfil do treinador com antecedência. Qual é o estilo de Rogério Ceni? Ele costuma dar espaço para atletas da categoria de base? Quais são suas preferências? Qual seu esquema tático predileto? Só o tempo nos dirá.
Ceni não tem experiência alguma no banco de reservas. É verdade que ele passou uma parte da atual temporada estudando no exterior e conheceu, superficialmente, como é feito o trabalho nos principais clubes do mundo. Mas isso não é suficiente para começar um projeto em um time do patamar do São Paulo. A contratação pode ser vista, ainda, como uma falta de técnicos que agradem a diretoria. Roger Machado seria a minha primeira opção.
Rogério, que poderia comandar algum time da base, vai enfrentar uma realidade bem diferente daquela que vivenciou na maior parte dos anos em que foi jogador. Enquanto Palmeiras e Santos estão garantidos na fase de grupos da Libertadores e o Corinthians briga para entrar no G-6, o Tricolor tem chance zero de classificação. No primeiro semestre, além das primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, o Soberano vai disputar o Paulistão e as fases iniciais da Copa do Brasil.
Nessa relação, quem tem a ganharé o próprio clube. Ao colocar uma peça totalmente familiarizada com a torcida, há maior probabilidade de se tornar ainda mais ídolo, caso recoloque o time nos eixos. Se não houver sucesso, uma parte da nação vermelha, preta e branca vai deixar de aplaudi-lo. Aqui no Brasil, o torcedor tem memória curta e é mais passional a racional. Nem todo gênio dentro de campo tem a obrigação de ser excepcional fora dele.
Não será fácil convencer os atletas de que Rogério Ceni é a melhor opção. Não será fácil fazer com que não o vejam mais como um companheiro de clube, mas sim como um técnico não se faz de modo automático. Para uma agremiação que estacionou no tempo, nada melhor do que contratar, primeiramente, jogadores capacitados para levantar a autoestima na capital paulista.

Lucas Colombo Rossafa
 (jalesense, aluno do 2°ano de jornalismo da  PUC/Campinas) 

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