Artigo

Mundo de Pollyana

Um amigo me convidou para escrever aos domingos neste Jornal de Jales. Jornalista que sou, quero colaborar para manter bons veículos de comunicação em circulação, principalmente em tempos tão difíceis pela concorrência da internet e devido a recessão econômica que o país atravessa e tende a se agravar pós pandemia da Covid-19.

Ocupar um espaço em uma mídia tradicional requer compromisso, então perguntei: “Sobre o que querem que eu escreva?”. A resposta foi: “Sobre o que você quiser”. Na verdade, tratava-se de uma falsa liberdade. O já sabia que escrever, para mim, é uma forma de não “engolir” injustiças, então os textos certamente seriam sobre temas problemáticos para a sociedade. Dessa forma, há mais de um ano, todo domingo, abordo uma questão social geralmente difícil.

Mas, ao longo desse período, venho lendo outros colegas articulistas e seus textos encantadores tão diversos entre jardins e cromoterapia. O que me levou a conversar novamente com o amigo-editor: “Vou mudar. Escreverei sobre temas mais ‘leves’”. Desconfio que ele deve ter sorrido do outro lado do telefone.

Mas a ideia é essa. Hoje tratarei de amenidades. E, por algum motivo que não consigo explicar, de novo comecei pelo título: “Mundo de Sofia”. E já estanquei. Tratar de filosofia no domingo? Não, acho que não. Nem de longe isso seria simples. Troquei a Sofia, de Jostein Gaarder, pela Pollyana, de Eleanor Porter.

A personagem Pollyana, criada em 1913, é uma menina de 11 anos que, após a morte do pai, um missionário pobre, se muda de cidade para morar com uma tia rica e severa que ela nem conhecia. No novo lar, a garota sofre muito, mas para aliviar as dores, passa a ensinar às pessoas ao seu redor, o “jogo do contente”, que havia aprendido com o pai. O jogo se resume a sempre achar um lado bom em todos os eventos ruins.

Assim, pensando em esquecer a dor da pandemia do novo coronavírus e seus mais de 1 mil mortos a cada 24 horas no Brasil (números subnotificados), comecei a pesquisar sobre a nova rede social onde as pessoas fazem pequenos vídeos, a maioria engraçados, para se descontrair. Enquanto criava minha conta, a TV noticiava que o presidente da República vetou a lei que obriga o uso de máscaras em locais públicos. Pensei: “Será que o mundo todo está errado e só ele está certo?”

Para desanuviar, fui pesquisar uma receita nova, vi que mandar comida para familiares e amigos em tempos de pandemia é a nova modinha do bem. Enquanto separava os ingredientes, o repórter comentava sobre a senhora idosa, de 61, que foi resgatada de trabalho análogo a escravidão em um bairro chique de São Paulo. Escravidão no século 21, meu Deus!

Foquei novamente no objetivo de encontrar coisa boa na realidade ruim e comecei a preparar as roupas que vou doar para a Campanha do Agasalho. E desta vez foi o rádio que me tirou o chão: mais uma criança morta, com tiro na cabeça, enquanto brincava em casa, lá no Rio de Janeiro.

Pollyana que me desculpe, mas o “jogo do contente” é muito difícil de jogar.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(Jornalista, professora, gestora da Damásio Educacional e Criar Redação em Araçatuba)

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