quinta 22 outubro 2020
Perspectivas

Medíocres

O brasileiro mediano é mesmo um “cara que se acha”. Sempre sabe sobre tudo. Tem certeza de tudo. É capaz de falar com fluência da vida alheia, julgar pessoas, taxar indivíduos que nem conhece. Faz tudo isso com a mesma propriedade que discute sobre política e religião baseado nas fake news dos grupos de WhatsApp. Infelizmente há milhões deles.

Ainda que o mundo dê uma guinada, esse cérebro medíocre não entende o que acontece na sua frente. Observem o exemplo da Covid-19. De uma hora para outra, ela alijou as pessoas do mundo inteiro de tudo. Em um dia, todos podiam sair, trabalhar, encontrar amigos, rir, beber, abraçar e beijar. No outro, já não era possível fazer mais nada. Um vírus, isso mesmo, um ser invisível, considerado insignificante por muitos, comprometeu todas as antigas certezas e os planos das populações do mundo. Menos dos brasileiros medianos.

E já se vão cinco meses assim. Sem abraços, sem beijos, sem encontros. Sem trabalho, sem dinheiro, sem perspectivas. O noticiário de quinta-feira, dia 21, mostrou: foram mais de 330 mil mortes do mundo, no Brasil a soma era de 20.047 óbitos (em números subnotificados porque não há testes para todos).

No espaço de 24 horas, por mais de uma vez, somaram-se mais de mil pessoas que perderam a vida porque não encontraram vagas para tratamento nos hospitais superlotados. Faço uma conta rápida: É como se 10 aviões de médio porte caíssem por dia no país. Repito: 10 aviões caindo por dia no país. Alguém acha isso normal? O brasileiro mediano.

Aquele que refuta a Ciência, o conhecimento. Aquele que, podendo, não respeita o distanciamento social e reúne amigos, faz festas. Aquele que contraria as orientações dos órgãos de saúde e não usa a máscara no contato com outras pessoas expondo os outros ao perigo. O mesmo que acha graça na piada infame de rima pobre entre cloroquina e tubaína.

O pior de tudo é que este ser mediano não pode ser consertado pela Educação. Aliás, ele é tão “dono da verdade”, que dispensa o conhecimento. Ele se julga mais importante do que Aristóteles e Platão, Einstein e Stephen Hawking, Leonardo Da Vinci e Hannah Arendt. Diante deles, só consigo pensar em Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista, professora de Redação e empresária no ramo da educação em Araçatuba) 

Desenvolvido por Enzo Nagata