domingo 17 outubro 2021
Perspectivas

Machos em crise

Na infância e adolescência da minha geração, as mulheres que nos serviam de referência como modelos de beleza não eram as atrizes, nem as modelos, nem seriam as influenciadoras digitais de hoje. Quem fazia sucesso entre nós eram as irmãs mais velhas das nossas amigas ou as garotas das turmas mais avançadas da escola.

A Renata Zaccarelli, a Marlene Giraldelli e a Marli Trouva, por exemplo, deixariam acanhadas as “angels” da Victoria Secrets. Quando comparo as mulheres da minha mocidade com a Gisele Bündchen, nem acho Gisele tão bonita assim.

Renata, Marlene e Marli eram das turmas mais velhas, mulheres altas, de corpos estruturais, que poderiam ser “Afrodites ou Brigittes (Bardot), Stephanie de Mônaco”, como cantou Paulo Ricardo, do RPM, no sucesso “Olhar 43” dos anos 1990.

Além delas, eu tinha admiração também por uma das irmãs da minha amiga Flavinha. Todas as mulheres da família Mistilides (quatro irmãs) eram bonitas, mas a Adriana tinha, além da beleza, uma luz. Acho que era pelo sorriso constante, a voz calma, a educação com que tratava todos e, especialmente, o bom humor, a positividade, o carisma. Ela era luz.

Foi essa mulher que um homem assassinou friamente, com três tiros, na última segunda-feira (dia 9). O motivo? Ela terminou o relacionamento e ele não aceitou a decisão dela. Morreu, aos 56 anos, a mãe amorosa de três filhos e a avó querida de três netos.

Não tive nem tempo de agradecer o comentário afetuoso (que ela sempre fazia) na postagem em homenagem ao Dia dos Pais que eu havia feito ao meu marido em uma rede social. A minha revolta é grande.

O fato de o assassino ter cometido suicídio na sequência da morte de Adriana não me acalma. É fato que ele estava doente, é fato que muitos homens estão doentes porque os feminicídios só crescem neste país. Mas é fato, também, que as mulheres não podem continuar morrendo porque os machos estão em crise.

Adriana, mulher inteligente, esforçada, determinada e independente, representa um grupo chamado agora de “mulheres alfa”, aquelas que conquistam cada vez mais espaço e respeito no mercado de trabalho e na sociedade sem se brutalizar.

Enquanto isso, os “machões - homens alfa” acham que têm de provar mais fortemente sua masculinidade. Quando são tratados por elas com determinação (como o término de um relacionamento), tornam-se constrangidos e irritados, sentem-se mais fracos e, muitos, têm atitudes exacerbadas de agressividade.

As conquistas dos sujeitos anteriormente oprimidos, que neutralizaram a força física e o lugar de poder do homem, provocaram a “crise do macho”. Os homens estão doentes. E as mulheres não podem pagar por isso. Aos covardes que gritam, xingam, batem, espancam e matam: Vão se tratar!

 Ayne Regina Gonçalves Salviano (Jornalista, professora, gestora do Damásio Educacional em Araçatuba e Birigui.)

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