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Livro de ouro e falta de reconhecimento

Editorial
15 de julho de 2019
Causou certo espanto entre os leitores a entrevista publicada por este jornal na edição de domingo passado, dia 7, concedida em Jales pelo deputado estadual Sargento Nery (Avante).
Em visita à Santa Casa e ao Hospital de Amor, o parlamentar de primeiro mandato sugeriu a elaboração de livros de ouro, um para cada instituição.
Livro de ouro, nos moldes que a população conhece, é uma forma de campanha para levantar dinheiro em favor de alguma pessoa necessitada ou para socorrer iniciativas que exijam investimentos de terceiros.
Vai daí o visitante sugeriu o tal livro de ouro mediante o qual cada um dos 94 deputados estaduais apresentaria emenda parlamentar no valor de R$ 100 mil para os dois hospitais de Jales, o que renderia R$ 9 milhões e 400 mil para a Santa Casa e o mesmo valor para o Hospital de Amor.  
Como na política, tanto quanto no meio artístico, impera a fogueira das vaidades, ou seja, ninguém coloca azeitona na empada do colega/concorrente, será muito difícil para o deputado Sargento Nery convencer seus pares a comprarem sua ideia. 
Nada disso seria necessário se o governo federal tivesse outra visão da presença dos hospitais filantrópicos principalmente no interior dos estados.
Segundo levantamento de Denir Lerrer Rosenfield, professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicado na edição do jornal O Estado de S. Paulo de segunda-feira, 8 de julho, o número de hospitais filantrópicos no Brasil é impressionante: 2.172. Em 968 municípios, só existem as Santas Casas. 
Em trecho de seu levantamento, Rosenfield constata que existe um paradoxo. O serviço prestado pelas Santas Casas é claramente público, enquanto a sua fonte de financiamento é insuficiente para cobrir os seus custos 
E prossegue: para se ter uma ideia do problema, dos 170.869 leitos, nada menos do que 128.883, ou seja, 74% são destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Isso faz o custo dos serviços prestados ao sistema público, em valores de 2018, elevar-se até R$ 24 bilhões, recebendo em contrapartida, R$ 15 bilhões, arcando com um déficit de R$ 9 bilhões. 
Os números levantados pelo professor da UFRS são rigorosamente verdadeiros porque esta é a realidade da Santa Casa de Jales, cujos leitos são ocupados por 70% dos usuários do SUS.
Como a conta não fecha, a equipe do hospital é obrigada a recorrer a leilões de gado, almoços, jantares, quermesses, shows beneficentes, que geram recursos para saldar os compromissos.
Ainda de acordo com a publicação, só há um jeito de reparar a flagrante injustiça: atualizar a tabela do SUS. Desde o Plano Real, em 1994, até 2018, a tabela do SUS foi reajustada em 93,78%. Neste mesmo período, o INPC/IBGE, ou seja, a inflação, teve uma variação de 506,49%. E a variação do salário mínimo foi de 854%. 
Resumindo: se o governo federal fosse minimamente justo, não haveria necessidade de se falar em livro de ouro nem tampouco de recorrer à população para manter as Santas Casas de portas abertas.