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Lições do carnaval

Perspectivas por Ayne Salviano
18 de março de 2019
Ayne Regina Gonçalves Salviano
A maior festa popular brasileira acabou na última terça-feira. Mas as lições que aprendemos com ela este ano precisam durar. Comecemos pela análise dos títulos de campeãs das escolas de samba de São Paulo e Rio de Janeiro.
Na capital paulista, a Mancha Verde sagrou-se vitoriosa. No enredo, contou a história de Aqualtune, princesa negra do Congo, escravizada no Brasil como reprodutora e que aos seis meses de uma gravidez tornou-se guerreira fundamental para a consolidação do Quilombo dos Palmares. Ela lutava pelos direitos dos negros e das mulheres. Aqualtune foi avó materna de Zumbi dos Palmares, o líder quilombola mais lembrado no país.
No Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira recontou a história do Brasil por meio de heróis da resistência. Desde a comissão de frente, a escola se preocupou em descontruir figuras oficiais como Cabral, Dom Pedro I e Princesa Isabel enaltecendo outros nomes, principalmente de negros e indígenas. 
A mesma escola apresentou dois carros alegóricos que chamaram a atenção do público. Um com a jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu e irmã de Stuart Angel, ambos mortos pela ditadura militar brasileira. E outro com a família da ex-vereadora Marielle Franco, executada há um ano no Rio sem que a polícia aponte os culpados.
Usar o carnaval para levar às ruas temas tão importantes como a necessidade de valorizar a importância dos negros para a construção da história do Brasil, debater o papel fundamental das mulheres na sociedade, e cobrar o direito à liberdade de expressão para compor uma democracia demonstra a transformação da antiga folia sem compromisso em movimento político. 
Fica a provocação: Que lições tirar das manifestações diárias nos blocos de carnaval que entoaram gritos contra o presidente? Mas especialmente, o que aprender com a publicação do vídeo escatológico feito por Bolsonaro?
Talvez, que a democracia é nova para nós e ainda precisamos praticar muito.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano
(é jornalista e professora. Mestre em Comunicação e Semiótica com MBA Internacional em Gestão Executiva. É co-leader da Damásio Educacional Araçatuba)