jornaljales@gmail.com
17 3632-1330

Jornalismo “segura peão”

Perspectivas por Jornalismo “segura peão”
14 de abril de 2019
Marco Antonio Poletto
Engana-se totalmente quem imagina que jornalismo no interior é só festa e colunismo social. Muitos acham que o repórter do interior não faz outra coisa senão cobrir festa de rodeio, churrasco do prefeito, visitas de políticos e inauguração de obras municipais. Os pequenos jornais semanários há muito tempo estão se estruturando em modos profissionais e empresariais. Os antigos jornais de família, fundados por um advogado, um professor, um militar aposentado etc., vão cedendo espaço a organizações empresariais que já optam até mesmo pela terceirização, além de assinarem serviços noticiosos e de receberem colunas diárias pela Internet.
Quem tem uma ideia na cabeça e um computador na mão não precisa, necessariamente, fazer um “jornal de roça”. Se fizer, não terá leitores.  Se tiver, perderá em pouco tempo. Se o leitor está se atualizando, movido pelos processos inerentes à globalização, não resta outra saída às empresas de comunicação senão seguir a toada. A maioria já compreende o conceito de “globalização local”, isto é, de realizar na comunidade a integração que já se verifica entre países. Trata-se, pois, de valorizar os fatos locais, a história local, as pessoas do lugar, sem perder de vista o que passa pelo mundo globalizado.
Os jornais de comunidade tendem a crescer de importância, pois é para ele e para os demais veículos sérios do lugar, que a comunidade se volta como náufraga do mar global de notícias em busca de referência, de ponto de apoio, de reconhecimento da própria identidade. No jornal da cidade o receptor sabe que seu nome não vai sair errado e só ali ele ficará sabendo que o trânsito da rua da sua casa vai mudar de mão. Isto não seria possível no grande jornal globalizado que chega pelo correio às 10h.
O jornal do interior como “leitura local” será sempre insubstituível como marco referencial da comunidade, cabendo aos jornais regionais ou mesmo aos jornais dos grandes centros, o papel secundário de “segunda leitura”, exatamente por causa da absoluta necessidade de identificação entre emissor e receptor, característica acentuada do jornal de comunidade. À medida que se colocar a serviço da comunidade para lutar pelas causas coletivas, à medida que tiver a comunidade como sua única referência e preocupação, o jornal do interior conquistará prestígio e respeito, cabendo-lhe, depois, zelar por esse patrimônio com a responsabilidade e o equilíbrio de seu noticiário. Ao profissional desse tipo de jornal caberá  reconhecer  a importância social que a comunidade lhe atribui, mas, ao mesmo tempo, exercer seu trabalho com ética e humildade, sem jamais se deixar levar pela tentação de tirar proveito pessoal do seu status. Os que agem com seriedade ficam na memória histórica da cidade, os que traem a confiança da comunidade são execrados e esquecidos para sempre.
A carreira de muitos jornalistas de renome começou no pequeno jornal do interior e isto prova que em qualquer lugar há espaço para a ética, a seriedade, a competência, o texto bem apurado, a interpretação adequada do fato.
Grande número de pequenos jornais do interior também já possuem sites na Internet, com atualização permanente. Os repórteres já trabalham com câmaras digitais gravando as fotos e descarregando a imagem direta no computador. Os repórteres, entre uma cobertura e outra, são acionados pelo celular. Na verdade são jornais que procuram “substituir” a segunda-leitura, isto é, tentam evitar que o assinante seja obrigado a assinar o jornal do grande centro, bem mais caro, para ficar bem informado, daí a publicação de páginas com assuntos nacionais.
Acho que em qualquer lugar do mundo “o único compromisso de jornais e jornalistas é com a informação. Seu empenho nesta tarefa faz de um jornal qualquer, um jornal livre, logo um grande jornal. Uma nação de grandes jornais é uma grande nação. Sem este valor intrínseco, sem este quilate que advém de um entendimento superior das suas funções, um jornal, por melhor que seja organizado e construído, será apenas um catálogo de notícias”. Deonel Rosa Junior, sempre esteve ligado com tudo isso. Sempre...

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)