jornaldejales@melfinet.com.br
17 3632-1330

Jogos mortais

Por João Luiz Tunussi
18 de março de 2019
João Luiz Tunussi
Depois da tragédia em uma escola pública em Suzano/SP, onde dois jovens mataram alunos, professor e agente escolar, vêm o espanto, a incredulidade, o choro, a culpabilização e outros sentimentos mais. No entanto, a pergunta que todos nós nos fazemos é o porquê   de tanta violência. É claro, fazemos diferentes avaliações. Tentamos organizar o caos emocional que se instala. Olhando mais atentamente o cotidiano de grande parte de crianças e jovens, ouvindo aqueles que diretamente se relacionam com esses adolescentes, percebemos que há pais que não mais impõem limites a seus filhos, não mais conseguem respeito desses seres tão frágeis e ao mesmo tempo tão necessitados de freios. 
Não há a ideia aqui de culpabilizar pais, mas sim um esforço de análise. Um pai não pode esperar que a escola, e aqui falamos do sistema público, se responsabilize por educar para a sociedade essas crianças e jovens. Sabemos que professores, cansados e maltratados há décadas, não mais têm o respeito e deferência desses adolescentes, que as instituições de ensino público estão hoje não só com deficiência humana, mas estrutural. Hoje, infelizmente, vivemos dias de liberdade onde quase tudo é liberado e permitido. O não de um pai é igual a um sim. Só se fala de direito e direitos e nada de dever ou cobranças.
Cantar o Hino Nacional é ofensivo ou careta, disciplina e hierarquia é tortura. Há Jovens que se drogam em demasia, fazem festas nas ruas, perturbam os cidadãos e isso para muitos é o direito de ir e vir. O policial, se interfere, é repressor. Nada sobra de respeito à vida saudável. Nossos jovens, em grande escala, fogem do esporte, da boa leitura, do auxílio aos mais velhos. Perdem-se em atividades violentas, em jogos na internet ou videogames que parecem estimular agressões a idosos, a vizinhos, a amigos, a professores e, claro, à polícia.
Chans é um fórum de Internet que funciona na obscuridade: garotos e homens que se autointitulam machistas, nazistas, homofóbicos e racistas, que fazem postagens bizarras, pois a ordem do dia nesses chats é sempre a zoeira e a necessidade de causar revolta, choque e violência. Seria primário e ingênuo dizer que os atiradores de Suzano frequentavam esses fóruns ou que eles foram radicalizados a cometer o ato após terem contato com os chans.  Um estudo revela que 1 em cada 5 adolescentes tem problemas de saúde mental, constatou-se um aumento de 37/% na depressão adolescente e um aumento de 200% na taxa de suicídio. Tudo isso somado a falta de apoio e formação de um núcleo afetivo, principalmente nas situações de grandes desajustes sociais, o que leva um jovem à degradação emocional.
Temos que voltar ao básico e a normalidade. Dar limites e oferecer aos filhos um estilo de vida equilibrado. Nos últimos anos, filhos são criados por pais distraídos nas dificuldades do existir, pais que transferem a educação dos seus filhos a professores, que têm somente a função de expandir o conhecimento acumulado pela humanidade e não de educar jovens, crianças ou adolescentes. O núcleo familiar é que tem o dever de educar para o futuro
Hoje, estamos ligados à grande expansão tecnológica e isso tem afastado uma boa relação familiar. Além de tudo, na maioria das famílias brasileiras, o pouco tempo que resta de convivência, depois do trabalho, da escola, do cotidiano desconfortável, dos afazeres domésticos, é preenchido pela TV ou pelo celular. Ambos, hoje, tão presentes, que ocupam o espaço familiar da boa conversa, do diálogo, do estímulo, da realidade da vida, pois viver não é um jogo onde só quem testa seus limites é quem leva o prêmio, precisamos voltar à simplicidade de bons diálogos e afetos. Precisamos que a sociedade Brasileira repense o modo de viver.

João Luiz Tunussi 
(Investigador, Bacharel em Direito)