domingo 20 setembro 2020
Memória

Já fiz arapuca de bambu

Tenho lembranças muito boas da minha infância. Costumo dizer que fui um menino criado como se cria o “frango caipira”: solto no quintal. Digo isso por ter vivido num sítio, no córrego do Ribeirão Lagoa, próximo a Jales, entre árvores frutíferas, árvores nativas, pés de café e uma pequena mata. Para relatar o que desejo, entro no contexto da época, quando se caçava de estilingue e espingardinha de pressão e se pescava com varinhas de bambu ou com peneiras em córregos, açudes e lagoas.
A fauna e a flora eram tratadas de outra forma, talvez de uma maneira exploratória, mais permissiva. De fato, cortar árvores ou bambus, caçar, pescar e criar animais e pássaros em cativeiros e até plantar arroz no brejo eram práticas comuns - e   ninguém as questionava ou achava “fim de mundo”.
A molecada que vivia nos sítios também costumava construir e armar arapucas para capturar pássaros. Dei-me conta de que muitos que irão ler esse texto nunca viram ao vivo uma arapuca, nem ao menos sabem do que se trata. De maneira concisa, é uma armadilha em formato de pirâmide, destinada a pegar aves ou pássaros e pequenos animais de caça.
Naqueles tempos, a arapuca era feita em um ritual. Cortavam-se os bambus, colocava-se para secar, faziam-se as ripas e depois cortava-se do tamanho certo para a confecção do artefato. O material usado eram apenas várias ripas de bambu e dois pedaços de arame; as ferramentas, facão, serrote, martelo e alicate. Daí, despontava da “linha de produção” a grande armadilha.
Cada moleque, à sua maneira, saía pelos sítios buscando um local ideal para armar sua arapuca. Armava-se com uma forquilha, uma varinha flexível e outras rígidas. O “chamariz” para os pássaros era variado, dependendo do que se queria capturar. Poderia ser milho, mamão ou outro alimento que chamasse a atenção da presa.
Armava-se pela manhã e, ao longo do dia, conferia-se se houvera êxito ou não na captura dos bichinhos. Os pássaros mais capturados em arapucas eram saracura-três-potes, rolinha, juriti, inhambu e sabiá-laranjeira; os mais desejados, a pomba-asa-branca ou pomba-do-ar.
A graça maior era capturar o pássaro para provar que a armadilha funcionava, já que a maioria dos pássaros eram soltos em seguida. E o ritual se fechava ali. Até posso dizer que a molecada ficava feliz com pouca coisa. Talvez só houvesse esse ritual justamente para ocupar o tempo da molecada, já que, à época, não existia internet, nem celulares e tablets.
No passado, Chico Buarque gravou a música “Passaredo”, que hoje faz muito (mais) sentido: “Ei, quero-quero / Oi, tico-tico / Anum, pardal, chupim / Xô, cotovia /Xô, ave-fria / Xô, pescador-martim / Some, rolinha / Anda, andorinha / Te esconde, bem-te-vi / Voa, bicudo / Voa, sanhaço / Vai, juriti / Bico calado / Muito cuidado / Que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí [...]” 
Em tempos defesa do meio ambiente, por que me atrevi a escrever sobre a arapuca? Os tempos felizmente são outros e hoje vejo essa prática como algo errado. Agora, meu prazer é outro: há dias em que acordo com os cantos dos bem-te-vis ou com o barulho estranho feito pelos tucanos nos pés de embaúbas que plantei no quintal de casa, justamente para atraí-los, ouvi-los e contemplá-los, livres. Para que capturávamos os bichinhos? Pássaro bom é pássaro solto, em sintonia com a natureza, em meio ao verde, fazendo sinfonia, pulando de galho em galho e produzindo alegria.

Marçal Rogério Rizzo
(Economista e Professor na UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)
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