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Já fiz arapuca de bambu

Por Marçal Rogério Rizzo
30 de junho de 2019
Marçal Rogério Rizzo
Tenho lembranças muito boas da minha infância. Costumo dizer que fui um menino criado como se cria o “frango caipira”: solto no quintal. Digo isso por ter vivido num sítio, no córrego do Ribeirão Lagoa, próximo a Jales, entre árvores frutíferas, árvores nativas, pés de café e uma pequena mata. Para relatar o que desejo, entro no contexto da época, quando se caçava de estilingue e espingardinha de pressão e se pescava com varinhas de bambu ou com peneiras em córregos, açudes e lagoas.
A fauna e a flora eram tratadas de outra forma, talvez de uma maneira exploratória, mais permissiva. De fato, cortar árvores ou bambus, caçar, pescar e criar animais e pássaros em cativeiros e até plantar arroz no brejo eram práticas comuns - e   ninguém as questionava ou achava “fim de mundo”.
A molecada que vivia nos sítios também costumava construir e armar arapucas para capturar pássaros. Dei-me conta de que muitos que irão ler esse texto nunca viram ao vivo uma arapuca, nem ao menos sabem do que se trata. De maneira concisa, é uma armadilha em formato de pirâmide, destinada a pegar aves ou pássaros e pequenos animais de caça.
Naqueles tempos, a arapuca era feita em um ritual. Cortavam-se os bambus, colocava-se para secar, faziam-se as ripas e depois cortava-se do tamanho certo para a confecção do artefato. O material usado eram apenas várias ripas de bambu e dois pedaços de arame; as ferramentas, facão, serrote, martelo e alicate. Daí, despontava da “linha de produção” a grande armadilha.
Cada moleque, à sua maneira, saía pelos sítios buscando um local ideal para armar sua arapuca. Armava-se com uma forquilha, uma varinha flexível e outras rígidas. O “chamariz” para os pássaros era variado, dependendo do que se queria capturar. Poderia ser milho, mamão ou outro alimento que chamasse a atenção da presa.
Armava-se pela manhã e, ao longo do dia, conferia-se se houvera êxito ou não na captura dos bichinhos. Os pássaros mais capturados em arapucas eram saracura-três-potes, rolinha, juriti, inhambu e sabiá-laranjeira; os mais desejados, a pomba-asa-branca ou pomba-do-ar.
A graça maior era capturar o pássaro para provar que a armadilha funcionava, já que a maioria dos pássaros eram soltos em seguida. E o ritual se fechava ali. Até posso dizer que a molecada ficava feliz com pouca coisa. Talvez só houvesse esse ritual justamente para ocupar o tempo da molecada, já que, à época, não existia internet, nem celulares e tablets.
No passado, Chico Buarque gravou a música “Passaredo”, que hoje faz muito (mais) sentido: “Ei, quero-quero / Oi, tico-tico / Anum, pardal, chupim / Xô, cotovia /Xô, ave-fria / Xô, pescador-martim / Some, rolinha / Anda, andorinha / Te esconde, bem-te-vi / Voa, bicudo / Voa, sanhaço / Vai, juriti / Bico calado / Muito cuidado / Que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí [...]” 
Em tempos defesa do meio ambiente, por que me atrevi a escrever sobre a arapuca? Os tempos felizmente são outros e hoje vejo essa prática como algo errado. Agora, meu prazer é outro: há dias em que acordo com os cantos dos bem-te-vis ou com o barulho estranho feito pelos tucanos nos pés de embaúbas que plantei no quintal de casa, justamente para atraí-los, ouvi-los e contemplá-los, livres. Para que capturávamos os bichinhos? Pássaro bom é pássaro solto, em sintonia com a natureza, em meio ao verde, fazendo sinfonia, pulando de galho em galho e produzindo alegria.

Marçal Rogério Rizzo
(Economista e Professor na UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)