Memória

Infância querida: lá pro meu quintal, eu quero voltar...

Passei minha infância na cidade paulista de Jales. À época, era uma cidade pacata e maravilhosa para se viver. Apesar dos meus quarenta e poucos anos, lembro-me como se fosse hoje das tantas passagens que me trazem à mente uma deliciosa saudade...
Era uma época diferente; afinal, não existia tanta tecnologia. Essa mesma que hoje nos auxilia e nos beneficia tanto, porém muitas vezes, dependendo da intensidade e da forma como é usada, nos virtualiza e nos afasta do convívio familiar e dos amigos, das brincadeiras saudáveis e até mesmo dos sonhos. 
Ah... saudade! Como era boa aquela época, que, apesar da simplicidade, nos tornava próximos do próximo. O importante eram as pessoas, o convívio, o viver em comunidade.
Confesso que, quando menina, não me importava tanto com as bonecas e seus acessórios. O que me agradava de verdade eram os muitos jogos e as atividades que fazíamos entre amigos. Podíamos brincar com várias crianças. Parecia que a maldade não existia. 
Lembro que, na minha casa, localizada na Rua 19, havia uma parte do quintal que, para a minha alegria, era de terra. Isso para quem vivia na cidade era uma experiência incrível. Ali era um local que nos proporcionava brincadeiras diversas, que às vezes nem agradavam tanto aos pais; pelo contrário, assustavam nossos genitores. Ali fazíamos bagunças incríveis com muita criatividade, como, por exemplo, guerra de bolinho de barro. Imaginem a “alegria” dos pais ao ver nossas roupas.
Nesse quintal, havia um pequeno pomar com algumas árvores frutíferas. Tinha um abacateiro imenso, ao menos no modo de olhar próprio de criança. A sombra era maravilhosa e servia para nos reunirmos e brincar de casinha.  Nossa, como era legal! Era uma imitação da vida adulta, com direito a comida feita no fogão de tijolos e tudo mais... Passávamos a tarde esquecidos de tudo. A imaginação e o tempo voavam!
Aqui vale colocar as palavras do poeta Manoel de Barros: “Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande [...]”
Nosso quintal era fantástico, mas relembro também as brincadeiras na rua. Isso mesmo: na rua; ou melhor, nas ruas. Andávamos e brincávamos pelas vizinhanças de casa, e o melhor: sem o perigo do trânsito ou da falta de segurança. Brincávamos de bola queimada, brincávamos de pique-esconde, andávamos de bicicleta, jogávamos bets e tantas outras brincadeiras de rua, das quais nem recordo o nome agora. 
Enfim, era muito saudável aquela interação e hoje me causa uma sensação de infância muito bem vivida. À época, havia muitos vendedores ambulantes, que vendiam grande variedade de produtos como pães, suquinhos engarrafados, yakult, sorvetes. Eu e meu irmão Mário estávamos sempre a realizar trocas de vasilhames de guaraná por sorvetes (isso era uma prática muito comum), assim que minha mãe se distraía um pouco com os afazeres no lar.
A escola da época também era muito divertida.  Havia respeito e carinho para com os professores e funcionários. Gostávamos de ir às aulas e dávamos o verdadeiro valor a tudo. Que saudade! Esse foi um pequeno relato da minha infância, saudosa e saudável. 

Adriana Grigolim
 (Nascida em Cuiabá/MT. Passou a infância e adolescência em Jales. Com 18 anos foi estudar Farmácia em Maringá (UEM). Hoje é farmacêutica (funcionária pública) em Sabino/ SP. Casada com José e mãe de Gabriela e Felipe)
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