quarta 14 abril 2021
Perspectivas

Imprensa marronzista

Uma piada antiga dizia que a única verdade escrita num determinado jornal era a data. No anedotário também encontramos o epíteto “marronzista” adjetivo usado por Odorico Paraguaçu para (des)qualificar o jornal de Sucupira. De fato, a imprensa é rica em adjetivos além de Marrom. Independente, chapa-branca e sensacionalista, são alguns deles. Desconsiderando a maledicência que as acompanham, todas elas lembram a necessidade de isenção dos meios de comunicação como premissa para a credibilidade de um fato. No Brasil são famosas as posições de vários meios de comunicação que mudam sua linha editorial de acordo com os interesses de financiadores. Uma das mais famosas é a do jornal “Última Hora” e de seu editor Samuel Wainer. Sobre a posição do jornalista, escreve a sua biógrafa Karla Monteiro: “Seria mais preciso dizer que trocava, quando a oferta era conveniente. Em termos ideológicos, ele se mantinha naquele rumo, sempre à esquerda, e caso encontrasse alguém disposto a financiar o avanço pela mesma estrada, por que não?”.

O advento das mídias serviu para enriquecer o já grande número de apelidos. Surgiram termos tão esquisitos quanto as notícias propagadas por eles. “Blogs sujos”, “gargantas de aluguel” e as indefectíveis “fake news” contribuem para a tentativa de afastar-nos da verdade, antes de ajudarem a preservar um bem inalienável da sociedade, que é o direito à informação sem distorções. É também pela consequência de cada um expor seu ponto de vista espalhá-lo por todo o universo, que a verdade é hoje só um detalhe, ou um item descartável e substituível, que cede lugar à realidade que se quer ver. Entretanto, o pior de tudo é a instantânea transformação de um fato discutível em dado científico só porque ‘saiu na internet’(SIC).

No academicismo se exige cuidado redobrado e esforço para credenciar um dado como sendo de valor científico. O fato precisa ser veiculado por uma publicação renomada, de fator de impacto relevante. Satisfeita essa premissa, requer-se do público-alvo saber interpretar o que foi escrito, onde cada tipo de estudo tem seu peso. Revisão sistemática é superior e um estudo clínico ocupa um dos últimos lugares da fila. É dentro desse prisma que deve ser feita a leitura da importante pesquisa multicêntrica anunciada por Jean-Claude Tardif, MD, do Montreal Heart Institute, que mostrou promissores resultados no uso de um conhecido anti-inflamatório como substância capaz de diminuir a evolução para casos graves, redução de mortalidade e menor complicações para os acometidos de COVID. Caberia, então, perguntar o porquê de não se comemorar o feito e iniciar de imediato o uso da substância no tratamento da doença. A resposta é muito simples: porque ainda não foi publicada em um periódico científico com fator de impacto que o qualifique, mas por um órgão leigo de imprensa (COLCORONA TRIAL - Colchicine for Early COVID-19? Trial May Support Oral Therapy at Home | MedPage Today 31/01/2021). Simples assim. Em outras palavras, a verdade não depende das vontades pessoais. É preciso nos curvarmos a ela, lutar pela sua consolidação ou – na impossibilidade de uma coisa ou outra – esperarmos sentados e de bocas fechadas pela sua chegada.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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