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Ginecologista Joaquim Severino de Almeida fala sobre gravidez depois dos 40

ENTREVISTA DA SEMANA
02 de abril de 2017
Joaquim Severino: “Nas últimas décadas houve um avanço muito grande, tornando a mulher mais segura para adiar sua maternidade”
O médico jalesense Joaquim Severino de Almeida confirma uma tendência que vem aumentando de forma acentuada nos últimos anos, inclusive entre as suas pacientes de Jales e da região, de mulheres que preferem engravidar com idade mais avançada. Não é pouco: segundo dados do Ministério da Saúde, esse aumento foi de mais de 20% nos últimos dez anos, pelas que esperam para ter o primeiro filho depois dos 40 anos. Motivos para isso não faltam, segundo o especialista que explicou em detalhes como esse aumento vem acontecendo e os cuidados que precisam ser tomados pelas futuras mães mais experientes. (L.R.)

J.J. – O número de mulheres que preferem engravidar mais tarde também vem aumentando em Jales?
Joaquim Severino - Sim, esse é um fato real que também percebo em meu consultório com um grande número de pacientes idosas tento o primeiro e às vezes até o segundo filho. Não sei se no meu caso isso também se deve ao fato de ter uma clínica privada e ser um meio referencial para esse tipo de gravidez que é tida como de alto risco.

J.J. – Qual a diferença de uma gravidez antes e depois dos 40 anos?
Joaquim Severino – Na verdade, a mulher, até os 35 anos, tem menos doenças, menos comorbidades, e a gravidez é considerada de risco normal. Depois dessa idade, ela passa para a gravidez de alto risco porque normalmente passa a ter mais chances de ter comorbidades associadas a essa gravidez, como diabetes, hipertensão arterial e outras doenças advindas da própria idade.

J.J. – Qual a recomendação para esse tipo de gravidez?
Joaquim Severino – É preciso que a mulher tenha controladas essas comorbidades, antes de pensar em engravidar. Engravidando, por meios naturais ou artificiais, essa paciente precisa fazer um pré-natal com mais cuidados para que essas comorbidades não interfiram na sua gestação. O número de cesarianas, nessa fase também costuma ser maior justamente por causa dessas comorbidades que dependendo do caso podem interferir 
no final da sua gestação.

J.J. – Por que esse aumento da gravidez em idade mais avançada?
Joaquim Severino – Os motivos são vários. Muitas vezes a mulher quer ter uma estabilidade financeira, vai para a faculdade, entra no mercado de trabalho e quer ter esta estabilidade, quer aproveitar aquele lado profissional. É normal que nessa situação ela demore a conseguir um parceiro adequado. Casando um pouco mais tarde, ela também quer curtir um pouco esse casamento para depois ter o seu primeiro filho. Ela também sabe que com isso já não tem só o trabalho para cuidar, tem o marido, tem o filho e isso é para o resto da vida. Existe ainda o fator psicológico, pois as mães mais maduras se sentem mais seguras para educar e criar os filhos, principalmente quando não tem o marido para ajudar, pois muitas preferem ter filhos sem casar.

J.J. – Com essa mudança, a medicina, a ginecologia também tem que se adaptar?
Joaquim Severino – Sim, a gente também percebe que outro fator para as mães deixarem para ter filhos mais tarde são as técnicas, como a fertilização, o acompanhamento da fecundidade de modo mais fácil. Nas últimas décadas houve um avanço muito grande, tornando a mulher mais segura para adiar sua maternidade.

J.J. – Tem muitas vantagens, mas também existem algumas desvantagens nesse adiamento da gravidez?
Joaquim Severino – Como já dissemos, a mulher hoje tem condições de se preparar melhor antes de ter seu primeiro filho, no que se refere ao acesso ao mercado de trabalho, a curtir a vida profissional e com mais tempo para escolher o parceiro e se estabilizar de modo geral e não só financeiramente. Essas são algumas vantagens, mas por outro lado existem também algumas desvantagens, como maior risco, afetando inclusive a fecundidade. Para se ter uma ideia, a mulher com mais de 40 anos tem apenas 50% de chance de engravidar naturalmente. Aí ela tem que recorrer às técnicas de fertilização que ajudam muito. O pré-natal também tem que ser mais adequado, com mais cuidados. Há ainda o risco maior de ter fetos com más formações, decorrente da idade, como a síndrome de down, que acontecem também nas mulheres mais novas, mas de forma menos intensa. Mas hoje a medicina fetal oferece condição de até fazer um diagnóstico citogenético, do próprio embrião, antes de implantar na mãe, embora seja ainda um exame caro, que não se faz de rotina.

J.J. – Com a idade mais avançada, a mulher também acaba tendo menos filhos?
Joaquim Severino – Isso também acontece e com isso a taxa de reposição da população deve diminuir se continuar nesse ritmo.

J.J. – Isso já vem acontecendo?
Joaquim Severino – Já, mas isso só deverá ser sentido, mesmo, daqui a duas décadas. A taxa de fertilidade humana hoje, segundo dados do Ministério d a Saúde, está girando em torno de 2.1 nascidos vivos por mulher, mas isso é regionalizado. É maior no Nordeste, onde gira em torno de 2.36, enquanto no Sul fica em torno de 1.65. Aí entra o Sudeste, Centro-Oeste e o Norte, cada um com um valor diferente. O que também interfere na taxa de fecundidade é a escolaridade, sendo maior nas mulheres jovens com menos escolaridade, o que mostra também a influência das condições sócio-econômicas nesse sentido. A religião também interfere, pois as pessoas com maior religiosidade também têm uma taxa menor de fertilidade. 

J.J. – O que pode mudar essa situação em relação aos mais carentes?
Joaquim Severino – A educação e aí entra também as políticas de saúde, pois além de dar uma eficiente educação sexual, você teria que dar meios para que as mulheres tenham acesso mais fácil aos meios contraceptivos, pois a população mais carente tem menos acesso aos métodos contracepcionais. Isso diminuiria muito, principalmente, a taxa de gravidez na adolescência, que é uma gravidez indesejada que hoje gira em torno de 19 a 20% , no país, o que ainda é alta.