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Gente estranha

Perspectivas por Mauricio de Carvalho Salviano
24 de setembro de 2017
Mauricio de Carvalho Salviano
Diante das prisões dos irmãos Batista, gestores da JBS, uma das frases ditas por Joesley marcou a semana: “fui mexer com os donos do poder e estou aqui agora. Estou pagando por isso”.
Aprendemos ao longo da vida, na escola, que existe uma dualidade em tudo. Na filosofia, empirismo e racionalismo. Nos sentimentos, amor e ódio. Nos valores, o justo e o injusto. Nos tribunais, autor e réu. E na sociedade, o Capital versus o trabalho.
Mas, por conta do homem ser um ser inacabado (Kant), que produz guerra de todos contra todos (Hobbes), que luta por propriedades (Locke), que desconfia das aparências (Hume) e não consegue dignidade frente ao Capital (Marx), surge o Estado para regular as relações interpessoais.
Sabemos que o Estado (República, no nosso caso) tem interesses diferentes das empresas. As empresas são conservadoras, isto é, querem manter as coisas como estão, no sentido de que haja diferenças entre pessoas, entre os colaboradores, ou seja, um gerente tem que continuar ganhando mais do que uma faxineira por conta de pretensos méritos estipulados pela sociedade, regida por valores materiais, historicamente.
Diferente é o Estado, onde os valores são os da igualdade, repartição de direitos como educação, saúde, assistência, entre outros.
O Estado, na ideologia imposta a ele de interferir no Capital, acaba, portanto, limitando as empresas, regulando a contratação de empregados, cobrando impostos sobre lucros, controlando aplicações financeiras, tudo para evitar uma completa dominação desta sobre todos, inclusive sobre o próprio Estado. Importante, então, que o Estado não se misture com o mundo do Capital, pois os interesses são radicalmente opostos.
Então, quando Joesley declara que foi “mexer com os donos do poder e estou aqui agora” (preso) pressentimos que ele (um dos maiores empresários do País), não estava falando do Estado, nem do Capital, mas de uma “gente estranha”.
Daí vem o choque, existe uma terceira pessoa entre o Estado e Capital; entre o Capital e o Trabalho; entre o amor e ódio; entre o justo e o injusto; entre o autor e o réu. Existem os “donos do poder” (na linguagem de Joesley), que não são empresários, mas representantes eleitos pelo povo e até representantes do Judiciário, de acordo com as delações premiadas do citado empresário.
Os irmãos Batistas são acusados de terem “comprado” centenas de políticos, além de decisões judiciais, no intuito de possuírem eventuais favores - a serem cobrados no futuro - e conseguirem benesses no presente. Ademais, conseguiram o que não pode acontecer, isto é, o BNDES (um braço do Estado) é detentor de parte de suas empresas, ou seja, utilizaram da República para enriquecerem ainda mais.
Mas, voltando aos representantes do Estado, pessoas eleitas pelo povo – dezenas agora denunciadas pela Procuradoria Geral do Estado, inclusive o Presidente da República, de forma inédita – além de diversos servidores públicos que auxiliaram a JBS a desviar os ideais do Estado (que é proteger o povo, dar segurança e igualdade de tratamento) o que fazer com eles?
Claro que nossa resposta, para a mudança do que aí está, deve passar pelo voto nas próximas eleições. Como já explicou Sócrates, há mais de dois mil anos, não podemos confiar nossa viagem marítima a qualquer pessoa, mas, sim, a uma pessoa que tenha técnica de navegação. Devemos parar,então,de votar em pessoas que não estejam devidamente habilitadas para ocupar um cargo público, seja porque têm ficha suja e também por possuírem habilidades que não respeitam a dignidade da pessoa humana, mas declaram “amor incondicional” às empresas privadas que bancaram suas candidaturas, já que – como vimos, os interesses são completamente opostos nas relações com o Estado e as empresas. Desta forma, evitaremos Fabianos, a personagem inesquecível do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e pessoas que não estejam comprometidas com a coisa pública (Res Publica).

Mauricio de Carvalho Salviano
(é professor universitário, Mestre em Direito pela PUC/SP, advogado e Gestor do Damásio/IBMEC em Araçatuba).