quarta 14 abril 2021
Arquibancada

Ganância e politicagem

Agora é oficial. Os rumores a respeito da expansão da Copa do Mundo se confirmaram e o Conselho da Fifa ratificou a decisão de realizar o torneio com 48 seleções a partir de 2026. A medida adotada pela principal entidade do futebol mundial representa uma alteração radical na perspectiva dos países menos desenvolvidos, além de priorizar uma arrecadação mais elevada e de buscar mais apoio político.
Se promessa é dívida, o presidente Gianni Infantino não pode ser acusado de estelionato eleitoral. O mandatário suíço, eleito em fevereiro passado, prometeu inchar a competição e levou menos de um ano para concretizar seus planos. O projeto enviado pela Fifa às confederações continentais – e aprovado por unanimidade pelo Conselho – tem uma ideia que reúne mais times, mais jogos e mais dinheiro. A instituição espera arrecadar US$ 975 milhões a mais do que em 2018 (na Rússia, estima-se US$ 3,54 bilhões). No entanto, os valores devem crescer, já que o potencial é imensurável.
A nova Copa não muda a rotina das grandes forças mundiais, já que a soberania europeia e sul-americana em relação aos demais continentes é evidente. Assim, os seus habituais representantes sempre estarão na disputa. Todavia, confederações que jamais se classificariam devem passar a ter, pelo menos, 11 das 16 novas vagas. A China, cujo mercado está em absurda expansão,é um dos exemplos.
A presença de países menos tradicionais favorece, naturalmente, o aparecimento de zebras. O formato criado vai estimular resultados inesperados. As surpresas acontecem no Mundial de Clubes e, com certeza, vão surgir na Copa do Mundo. Os feitos de Mazembe, Raja Casablanca e Kashima Antlers servem para lembrar-nos que, apesar da supremacia, o futebol também é jogado fora do Velho Continente.
A mudança, ainda, significa uma barrada da Fifa nos países ricos. No final de 2016, quando a ideia avançou, a Associação dos Clubes Europeus classificou de “inaceitável”. Todavia, terão de aceitar e a perda técnica será inegável. O aumento para 48 equipes resulta em times mais fracos ou medianos em um torneio que deveria reunir a nata de cada centro.
Ainda há ingênuos, mas a medida da Fifa não visa a democratização. O discurso de promover a evolução do jogo em regiões periféricas não se sustenta. Não é com a participação de uma seleção na Copa que o país vai progredir. É fundamental um trabalho de base eficiente, fortalecimento dos clubes e das ligas locais, além de investir em infraestrutura. Na prática, a entidade quer agradar seus eleitores e elevar seus lucros - a projeção é de R$ 21 bilhões, 35% superior ao alcançado no Brasil, evento que mais rendeu aos cofres da organização mundial.
Diante de tanta ganância e politicagem, a fórmula de disputa chega a ser menos relevante. Por curiosidade: 48 seleções divididas em 16 grupos de três. Os dois melhores de cada chave avançam ao mata-mata, totalizando 32 times nos jogos eliminatórios. A definição final sobre a distribuição das vagas deve ocorrer apenas em março, mas a tendência é que a América do Sul tenha seis participantes, além da repescagem.

Lucas Colombo Rossafa
 (jalesense, aluno do 3°ano de jornalismo da  PUC/Campinas) 

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