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Friorento

A mudança climática da semana, com os termômetros em queda - no domingo, aqui na região, o calor chegou aos 32 graus e já na terça-feira, pela manhã, havia gente usando os agasalhos guardados para junho/julho mostrando que somos friorentos.
30 de janeiro de 2012

 

A mudança climática da semana, com os termômetros em queda - no domingo, aqui na região, o calor chegou aos 32 graus e já na terça-feira, pela manhã, havia gente usando os agasalhos guardados para junho/julho  mostrando que somos friorentos. 
Friorentos ou friolentos?
Os dicionários em uso não registram as formas friolenta ou  friolento. Frio-fria, friento-frienta e friorento-friorenta são os que eles nos trazem.
E daí? Se quem tem bostelas (aquelas pequeninas pústulas subcutâneas) é bostelento; se quem pratica a fraude é fraudulento e quem cheira mal é graveolento; se quem está chateado e fica grilado e é grilento; se o que é bom é luculento; se o que vive no lodo é lutulento; se quem está cheio de mazelas é mazelento; se o que está infectado de peste é pestilento; se quem tem sono é sonolento; se o que tem suco é suculento; se quem se mete a valentão é truculento, por que quem tem frio não pode ser friolento?
Vindo do latim -lento é um sufixo com função intensificadora, com o sentido de provido ou cheio de, como também o são o –ento e o –oso: apedrejamento, afrontoso, embasamento, embaraçoso, gosmento, gostoso, etc.
O reconhecimento da palavra formada por derivação sufixal, como é o caso, necessita, primeiro, ser consagrada pelo uso. As formas friolento ou friolenta ainda são, em termos de língua, de usança restrita. Embora em suas formações estejam corretíssimas, faltam-lhes a certidão de nascimento outorgada pelos dicionários. 
Tenho dito com bastante freqüência, que a língua é dinâmica e está em permanente ebulição. Palavras são criadas quase que cotidianamente; e vocábulos são esquecidos todos os dias. Os dicionários, também chamados de léxicos, não criam e tampouco matam palavras; registram-na com base no uso que se faz ou se fizeram delas. Não há uma regra formal que determine quando o vocábulo deva ser inscrito ou apagado. Tudo depende do critério dos lexicógrafos.
O friolento é um termo trivial na linguagem do dia-a-dia, a nossa língua comum, que é simples, mas correta.
 É de uso corrente do povo, “do povo que fala gostoso o português do Brasil”, para lembrar o verso genial de Manoel Bandeira. 
Apesar disso, o vocábulo friolento ainda não tem vida própria e autônoma, no ‘pai-dos-burros’. 
Aliás, igualzinho a muita gente que anda por aí – e  cujos nomes, por desleixo ou desinformação, ainda não obtiveram anotação dos cartórios de registro. Podem não ser cidadãos, contribuintes ou usufruir de direitos, mas nem por isso deixam de ser entes humanos de individualidade própria.
Nem por isso deixam de existir.
 
Alcides Silva
Advogado