jornaldejales@melfinet.com.br
17 3632-1330

Francisco

Perspectivas por Marco Poletto
28 de abril de 2019
Marco Antonio Poletto
O ex-conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon, acaba de apontar o inimigo do progresso humano, da própria civilização: o Papa Francisco. Permito-me imaginar a aprovação imediata de Olavo de Carvalho, cita Mino Carta, em editorial que escreveu na Carta Capital em que o pontífice argentino teria de ser o maior desafeto do governo Bolsonaro.
Escreve, Mino: “Nesta quadra da história do mundo, o papa é meu herói, o estadista reformador da Igreja Católica, depois de longo pontificado de João Paulo II, o “santo” de Ratzinger que eu creio envolto nas chamas do Inferno”. O IOR, banco do Vaticano, sob a batuta de Wojtila e do seu lugar-tenente Marcinkus, esmerou-se em lavar dinheiro sujo das mais variadas procedências, mafioso inclusive, enquanto esvaía em perfeito silêncio o escândalo da pedofilia sacerdotal e a devassidão da Cúria Romana devolvia o Vaticano à época dos Borgia. “Francisco hoje é a voz da resistência aos falsos profetas do neoliberalismo e da violência da ultradireita, contra os fanáticos do Apocalipse e os graúdos donos do mercado. Suas palavras têm a força do açoite brandido por Cristo ao expulsar os mercadores do Templo. Do Brasil de Bolsonaro, Bergoglio só pode ser o maior inimigo.”
Antes de ser nomeado Papa, Bergoglio já era personalidade de destaque no continente americano, muito amado em sua diocese e reconhecido por ser um pastor simples. “O meu povo é pobre e eu sou um deles”, disse várias vezes para explicar a escolha de morar em um apartamento e de preparar o jantar sozinho, nos tempos de Arcebispo em Buenos Aires (Argentina).
O objetivo de Francisco é voltar aos primórdios do cristianismo, quando a palavra de Jesus ainda ecoava e a Igreja Católica não havia se tornado a mais perfeita monarquia por direito divino. É uma dura refrega que ele combate contra a resistência de quantos aplicam políticas destinadas a alvejar os pobres a favor dos ricos. No caso do Brasil, a situação consegue ser ainda pior. Enquanto cresce o desequilíbrio social, o País em colapso está à venda a preços de banana e o próprio Estado foi privatizado. Fermenta o ódio racial e de classe entre titulares e reservas da casa-grande em relação a quem habita a senzala sem reagir, e a todos os pregadores da igualdade.
Esta é a palavra-chave: igualdade. Por aqui cultivamos o abismo de maneira cada vez mais explícita. Escritores como Tolstoi já disseram que se Cristo voltasse a Terra seria novamente crucificado. O povo humilhado e ofendido sofre em silêncio, resignado como sempre. Pergunto que aconteceria se no carro crivado por 80 balas no Rio estivesse instalada uma família abastada? Dizem entredentes os meus botões: estaríamos até hoje a falar do assunto. Pergunto ainda: em qual país o episódio, ricos ou pobres os ocupantes do veículo, o fato deixaria de provocar um largo momento de comoção nacional?

Marco Antonio Poletto 
(é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural)