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Fora da Nova Ordem Mundial

Por Eduardo Britto
12 de maio de 2019
Eduardo Britto
São 7h e 10min. Como todo início de aula, solto aquele retumbante e estrondoso “senhoras e senhores, bom dia! ”. 
Começo as explicações e os esboços das palavras chaves na lousa. A sala está cheia. São mais de 100 alunos no curso pré-vestibular. Durante a aula, como de costume, não escuto sequer a respiração dos alunos. Eles intercalam os olhares para a lousa e as anotações nos cadernos com alto nível de concentração. Nesta aula, falo da importância de Bangalore, tecnopolo do sul da Índia que abriga um dos maiores centros de alta tecnologia do mundo. Inclusive, faz parte da “drain brain” (drenagem de cérebros) – termo utilizado para explicar a “exportação” de mão de obra altamente qualificada para os países desenvolvidos. Por que Bangalore chegou a este nível? Porque o governo indiano, há décadas, investiu em especialização dos seus jovens com grandes centros universitários e de pesquisas.
Numa outra turma, o tema é a China. Ao explicar a sua evolução, sobretudo de Deng Xiaping, passando por Hu Jintao, ao atual Xi Jiping, destaco que o país tem mudado os rumos de investimento. A China optou na última década em valorizar a melhoria na qualidade de vida em detrimento ao crescimento super elevado do PIB. Um dos pontos escolhidos pelos líderes chineses foi o desenvolvimento da tecnologia. Como? Triplicando o número de ingressantes em universidades e investindo em centros de pesquisa.
Já em outra sala, o país abordado foram os Estados Unidos. Ao diferenciar a costa oeste do Manufacturing Belt da costa leste do Sun Belt, mostrei que os Yankees perceberam que, para continuar na crista da onda com a globalização, era necessário alterar o modelo industrial do Nordeste para promover ciência e tecnologia no Sudeste. Mas, qual a estratégia adotada pelo maior PIB do planeta? Criar universidades e centros de pesquisa em Palo Alto, San Francisco, San Diego…
Ao terminar a semana, retomo aquela imagem dos ávidos estudantes. São dias, tardes e noites estudando, escorrendo gotas e gostas de esforço. Eles leem e aprendem que um país que deseja almejar algo positivo só alcança quando trilham o caminho da educação por meio da universidade. 
Não existe segredo. Potências mundiais e nações emergentes investem em educação, pesquisa e ciência. A Alemanha, por exemplo, anunciou esta semana investimentos de 160 bilhões de euros nos centros universitários e de pesquisas do país.
Portanto, não é por acaso aquele silêncio impecável e a atenção redobrada na aula. É a busca pela esperança pessoal e coletiva que só é possível vislumbrar numa universidade.
Essa semana, o ENEM abriu suas inscrições para a prova de 2019. É a primeira prova de tantas outras que os futuros biólogos, economistas, químicos, médicos, professores, juristas, enfermeiros, matemáticos, historiadores, filósofos, entre tantos mais, tentarão fazer aquilo que sabemos ser necessário: produzir ciência para melhorar a qualidade de vida do país.
Eu sei que é isso o que cada jovem faz na universidade. O resto é fakenews.

Eduardo Britto 
(Professor de Geografia do Colégio e Curso Objetivo de São Paulo, graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e Mestre em Ensino de Ciências pela UFMS