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Flertando com o perigo

Editorial
20 de outubro de 2019
Absolutamente chocado. Foi assim que se sentiu João Nogueira, um dos homens mais educados de Jales, depois de ler matéria publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” na edição do dia 7 de outubro. 
Título da matéria: “Réu em 27 ações, ex-prefeito diz ter trauma de política”. Em espaço equivalente a meia página, o jornalista José Maria Tomazela, nome estrelado do time do mais tradicional jornal do país, retratou com a costumeira competência a via-crucias que vem vivendo Otávio Cianci, ex-prefeito da vizinha Mesópolis. 
Chefe do Executivo do ex-distrito de Paranapuã entre 2005 e 2012, o popular Tavinho colecionou 27 ações na justiça de Jales, 17 das quais por improbidade administrativa. Os processos criminais por fraudes em licitações, falsidade ideológica e associação criminosa, ainda segundo o jornal, já renderam ao ex-prefeito condenações em primeira instância que somam 22 anos e 3 meses de prisão. 
Resumo da ópera: Tavinho  que, quando se elegeu prefeito pela primeira vez,tinha um bom patrimônio em imóveis, veículos e gado, hoje, por conta do pagamento de honorários a advogados e de bloqueios da justiça, ficou reduzido a pó de traque, a ponto de ter que morar de favor na casa de um filho. 
E por que o gentleman João Nogueira ficou tão chocado com o que leu? É que na condição de presidente do PTB de Jales e coordenador regional do partido, foi ele quem convenceu Tavinho Cianci a entrar na política, pois se tratava de uma pessoa de bem e membro de uma família respeitada em Mesópolis. 
Mas, o caso dele não é único na região. Outro ex-prefeito que viveu dias de glória, foi para o fundo do poço e hoje tenta reconstruir a vida é Cláudio Pereira da Silva, o Caju (PT), de Paranapuã. 
 Ele era humilde cortador de cana, elegeu-se vereador e, contrariando todos os prognósticos, disputou e venceu a eleição para prefeito em 2000 e se reelegeu em 2004. Caju, no auge da fama, era celebridade no âmbito interno do PT. O próprio ex-presidente Lula chamava-o de símbolo do PT e, mais de uma vez, comparou-o a si próprio, lembrando que saíra de Garanhuns-PE na carroceria de um pau-de-arara e Caju tinha começado a vida na enxada e na foice. 
Encerrados os dois mandatos, o ex-prefeito de Paranapuã ganhou de herança uma enxurrada de processos, alguns dos quais até hoje em andamento. Durante bom tempo, teve que ganhar o pão de cada dia como servente de pedreiro e, para vir ao fórum de Jales, tinha que pegar carona.  Só agora tenta respirar um pouco como consultor de uma multinacional de produtos de limpeza, batendo de porta em porta dos amigos. 
A vida pública fez outras vítimas.  Em Jales, o ex-prefeito Humberto Parini (PT) continua com os bens bloqueados. A ex-prefeita Eunice Mistilides Silva (PTB), cassada pela Câmara em 2015, ainda hoje, de vez em quando, tem que se defender de alguma ação. 
Os ex-prefeitos Luís Vilar de Siqueira (PSD), de Fernandópolis, Airton Saracuza (PP), de Urânia, e Edson Gomes (PP), de Ilha Solteira, chegaram a ser presos. 
Ou seja, ser prefeito, independentemente do tamanho da cidade, passou a ser, de uns tempos a esta parte, uma função de alto risco. Na reportagem do Estadão, Tavinho Cianci resumiu tudo: “os políticos novos que se candidatam a cargos executivos não imaginam a dor de cabeça que os espera. Eu não volto a me candidatar nem que seja a última pessoa de Mesópolis”    
2020 vem aí. Quem se habilita?