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Farrapos humanos

Por João Luiz Tunussi
03 de março de 2019
João Luiz Tunussi
Hoje, no Brasil, grandes centros e cidades menores vivem com levas de gente que, como zumbis, vagam em busca da próxima pedra. Esses seres causam nos outros diferentes reações, diferentes posicionamentos sobre o que fazer, não só para livrá-los do martírio do vício, como também tirá-los das ruas.
Sabe-se que a cocaína, quando fumada, chega ao cérebro em seis a dez segundos e dá uma sensação rápida e fugaz - isso é o crack. Como se não bastasse, surgiu o “oxi”, preparação mais forte e mais brutal para a sanidade de um indivíduo viciado. Crack e oxi tornam o ser um farrapo humano, sem condições de percepção de quem ele é. Esse indivíduo já não mais se percebe como gente, já não pode mais ser um caso de polícia. Portanto, é sim preciso intervir naqueles que já não apresentam condições cerebrais de decisão. Assim, a internação compulsória é o melhor caminho para o país enfrentar o crescimento das Cracolândias.
Esses espaços, além de indignos à vida humana, porque são focos de transmissão de diferentes doenças, geram no cidadão saudável medo e revolta, porque se tornam inviáveis ao comércio e à moradia. Somado a isso, a visão de crianças, velhos, mulheres grávidas e animais vivendo em total promiscuidade abala qualquer cidadão com bom senso e apreço à vida.
Ainda que especialistas se dividam sobre a internação sem o consentimento do viciado, é preciso fazer valer a lei 10.216, de 6 de abril de 2001, que “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”, porque qualquer humano que se disponha a observar uma Cracolândia, firmará o posicionamento de que há seres humanos que lá estão e não se percebem como farrapos, não há consciência neles da condição em que vivem e sim o desejo de outra e outra e outra pedra.
Ademais, se não se puder interná-los à força, não é justo mandá-los para a cadeia quando furtam ou roubam os transeuntes distraídos, pois esses dependentes não agem movidos pela razão e sim pela doença, porque é de conhecimento de todos que usuários contumazes de droga, qualquer que seja ela, são doentes. E doença exige tratamento.
Ações constantes das polícias são necessárias para coibir o tráfico de drogas na sociedade em geral e, claro, o constante repensar político das políticas contra as drogas. Junto com diferentes setores sociais, o Estado deve agilizar a implementação de clínicas e tratamentos laboratoriais para que, juntos, a sociedade brasileira possa sanar o problema das cracolândias e dar dignidade a quem está por um fio de vida.

João Luiz Tunussi 
(Investigador, Bacharel em Direito)