Editorial

Falta mulher

Quando a professora Hilda Elias Rochel de Souza foi eleita vereadora na primeira eleição municipal, em 1949, tudo indicava que, em pleno sertão da araraquarense, cheio de homens rudes,  Jales iria desmentir a crença, muito arraigada naqueles tempos,  segundo a qual “lugar de mulher é na cozinha”.
Infelizmente, apesar do promissor início, não foi o que aconteceu. A professora, por razões que não cabe aqui analisar, nem completou o mandato, mudando-se da cidade, só voltando depois de muito tempo, quando as feridas já estavam cicatrizadas, sendo carinhosamente recepcionada, iniciativa do memorialista Genésio Mendes Seixas. 
Pois bem, passaram-se exatamente 33 anos para que outra  mulher conseguisse conquistar uma cadeira na Câmara Municipal de Jales —a professora Esmarlei Henrique de Carvalho Melfi, em 1982, pelo PMDB,  reeleita em 1988 e, alavancada por uma forte atuação dentro e fora do âmbito legislativo,  escolhida em convenção municipal, em 1992, candidata à prefeitura pelo Partido dos Trabalhadores.       
Depois dela, houve novo apagão feminino só rompido em 2000, quando a combativa professora Aracy Murari Cardozo foi eleita vereadora pelo PT, reelegeu-se mais duas vezes e chegou a presidir a Câmara. 
Em 2008, correndo por fora, Pérola Cardoso, então voluntária do Hospital de Câncer, surpreendeu até os dirigentes do PT, tornando-se vice-campeã de votos, proeza repetida em 2012, o que lhe valeu a presidência da Câmara no primeiro ano da legislatura seguinte. 
Também em 2012, Eunice Mistilides Silva, do PTB, passou para a história tornando-se a a primeira mulher a conquistar a Prefeitura.Trombadas com a Câmara Municipal e falta de interlocução com as chamadas forças vivas e atuantes abreviaram seu mandato, sendo cassada em pleno carnaval de 2015.
 Além das professoras Hilda, Esmarlei e Aracy, da ativista comunitária Pérola e de Eunice, enfermeira de formação, só outra jalesense conseguiu alçar voo na política —deputada estadual Analice Fernandes (PSDB), nascida e criada na cidade onde viveu até os 18 anos, só saindo para fazer faculdade.
Ela foi a mais votada em quatro eleições seguidas —2002, 2006,2010 e 2014, e vice-campeã em 2018. Apesar do nariz torcido de quem a considera “estranha no ninho”, a deputada está enraizada na cidade que a viu nascer e, embora não more aqui, mantém um escritório político funcionando desde que se elegeu.   
Este breve recorte da política de Jales é revelador de uma indesmentível (e triste) realidade. Embora 51% dos 50 mil habitantes sejam do sexo feminino, as mulheres estão subrepresentadas em termos de conquista de mandatos populares. Aqui, em termos de representatividade política, o tal empoderamento feminino é letra morta. 
Culpa de quem? Delas próprias, que aparentemente não se interessam por política? Ou dos dirigentes de partidos que pouco ou nada fazem para atrai-las para a vida pública?
A eleição municipal de 4 de outubro será mais uma boa oportunidade para passar esta questão a limpo.

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