quarta 14 abril 2021
Perspectivas

Ética para quê?

Cláudio Abramo foi um jornalista brasileiro muito famoso. Ele morreu em 1987. Enquanto trabalhou nos principais veículos de comunicação do país, sempre foi apontado como um dos profissionais mais éticos. Li seu livro “A regra do jogo” enquanto era aluna de graduação em São Paulo. A obra é um clássico para todos que apreciam a boa comunicação.

Lembro que na época da leitura, fiquei encantada com o raciocínio simples e lógico que ele fez sobre a ética. Abramo escreveu: “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual a minha ética como jornalista – não tenho duas”.

Segundo ele, o cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir. Em qualquer área de atuação, é preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximirmos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa.

Para mim, tudo isso é muito claro até hoje. Mas, confesso, cometi um deslize ao longo desses anos. Esqueci que aquilo que é ética para mim, a partir dos meus valores e das minhas escolhas, pode não ser para o outro, que construiu outras verdades para si.

Ensinam os dicionários: “Ética é um segmento da filosofia que se dedica à análise das razões que ocasionam, alteram ou orientam a maneira de agir do ser humano, geralmente tendo em conta seus valores morais”.

Preconiza a filosofia: “É um conjunto de valores morais e princípios que regem a conduta humana na sociedade. A ética serve para que haja o equilíbrio e o bom funcionamento social, visando uma sociedade igualitária, produtiva e mais saudável”.

Reforça a sociologia: “Ética deriva do grego “ethos” (caráter, modo de ser de uma pessoa). É um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado”.

Que ninguém saia prejudicado. Em especial sobre este último tópico é importante ressaltar que é a ética - sempre ligada às ações das pessoas - que ajuda a definir aquilo que pode ser considerado correto ou incorreto, certo e o errado. E se os valores éticos estão tão voláteis nesse mundo pós-moderno como garantir um corpo social equilibrado?

Um povo sem ética está fadado à barbárie. Uma comunidade sem ética sempre será atrasada porque os valores individuais superarão os coletivos e a máxima do “cada um por si” só fará brotar os “espertos”. Uma empresa sem ética também está fadada ao insucesso porque a disputa individual pelo reconhecimento pode prejudica o grupo. Um ser humano sem ética define se vamos progredir ou regredir como espécie.

Tenho para mim que a ética precisa ser um pilar. Onde ele não estiver sustentando as relações, prefiro não permanecer. O risco é de morte, do espírito.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista e professora. Empresária da área da Educação em Araçatuba) 

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