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Enfermeira do SAMU faz campanha contra registros de imagens em locais de acidentes

É um desrespeito total para com o ser humano, como afirma Crislaine Nascimento de Assis Paes, enfermeira assistencial no SAMU.
04 de fevereiro de 2018
Crislaine: este é um problema que preocupa todas as equipes de resgate
É preciso uma ampla campanha de divulgação para que as pessoas deixem de colher imagens de acidentes e situações de vítimas para expor as mesmas nas redes sociais, simplesmente para mostrar que estão naquele local, sem se preocupar com quem está sofrendo com a situação ou já morreu. É um desrespeito total para com o ser humano, como afirma Crislaine Nascimento de Assis Paes, enfermeira assistencial no SAMU Regional de Jales e de Fernandópolis com pós-graduação em Urgência e Emergência e em Obstetrícia que está liderando um movimento contra esses registros.
Crislaine explica que qualquer pessoa tem celular com câmera fotográfica e filmadora, mas nesses casos, o que a grande maioria não sabe é que publicar fotos sem consentimento da vítima e do profissional que está atendendo é crime. O problema é que os profissionais do serviço de atendimento pré-hospitalar móvel vivenciam diariamente, nesses locais situações em que curiosos acabam interferindo no trabalho, fotografando e filmando situações em que as vítimas não têm escolha, sem importar com a dignidade das mesmas. E o que é pior: quanto mais chocante a situação, mais essas imagens são exploradas. 

MORBIDEZ
A situação de morbidez e falta de solidariedade muitas vezes chega aos extremos, com pessoas fazendo selfies na frente de vítimas ou veículos destruídos. Crislaine disse que ficou chocada com uma cena que nunca esquece, de um rapaz segurando a cabeça do pai todo ensanguentado, com ferimentos muito graves, dentro de um carro e várias pessoas fotografando e filmando, sem preocupar em ajudar ou conversar com o rapaz desesperado que aguardava a ambulância. Ninguém está preocupado com os familiares que vão ver as vítimas naquela situação desesperadora, como afirmou.
Crislaine descreve a seguinte situação: imagine você e sua família sofrer um acidente e ficarem presos nas ferragens, conscientes e sem poder fazer nada para chamar ajuda. Você vê pessoas chegando e passa a ter esperança de que tudo vai ficar bem. Você pensa que essas pessoas irão acionar os serviços de atendimento, mas as pessoas vão se aproximando só para filmar ou fotografar a sua situação e postar nas redes sociais. Infelizmente, como afirma, é o que sempre acontece nos atendimentos em residências, nas vias públicas, no comércio e até em estabelecimentos de saúde.

DIREITOS
A enfermeira do Samu explica que a pessoa que for vítima de exposição de imagens em redes sociais sem sua autorização deve registrar queixa na  Polícia para apuração, identificação da autoria e produção de provas para uma ação penal contra o acusado. Para isso é preciso guardar todas as provas, tirando print das telas, fotos e imprimir todo o material possível. Também pode acionar o telefone 181, (São Paulo) e o 100 (nacional). Ela lembra o Artigo 5º da Constituição Federal onde afirma que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.
Além de todos esses problemas, existem outros, como o risco para as próprias pessoas que estão colhendo as imagens que também podem se acidentar, caindo de barranco ou sendo atropelada, como já aconteceu. Isso sem contar que muitas vezes atrapalham o serviço dos socorristas. Tem ocasiões em que a equipe precisa sair com a vítima fora da cena do acidente para fazer alguns procedimentos de emergência longe dos curiosos.
Gislaine destaca que esse é um problema que afeta todo o trabalho das equipes, não só no Brasil, mas no mundo. Ela lembra que na Alemanha já está em andamento uma campanha nacional sobre o mesmo problema, alertando as pessoas para o fato de que registrar imagens de pessoas em situação de vulnerabilidade é ilegal, sujeito a punição.