Perspectivas

É preciso ter esperança

Não faz muito tempo, vivenciamos os rituais da passagem do ano. Houve quem comeu lentilha, aqueles que pularam ondas, outros que engoliram os sete grãos da romã e até quem usou cores específicas para desejos determinados: branco (paz), amarelo (dinheiro) e assim por diante. 
O poder dos rituais, sabemos, é simbólico, mas muito, muito poderoso para quem quer alimentar a esperança. Quem nunca ouviu falar que até a medicina se curva, muitas vezes, ao poder da fé porque, inexplicavelmente, pacientes são salvos quando já estavam desenganados? E este é o nosso tema de hoje, a importância de acreditar que tudo pode melhorar.
Mas não se preocupe, leitor, não farei uma abordagem religiosa. Não tenho conhecimento para tanto. Também não trarei mensagens prontas dos “coaches” da internet, minha índole não me permite. Prefiro contar histórias reais, coisa de jornalista mesmo. 
A de hoje é sobre Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Neta de escravos, filha de mãe analfabeta, frequentou a escola só até o segundo ano. Foi lavradora, empregada doméstica e catadora de papel. Mãe sozinha de três filhos, moradora de favela, ela usava suas noites-madrugadas para escrever o que via, vivia e pensava em um diário, que, certa vez, entregou ao repórter Audálio Dantas. Ele a ajudou a publicar o livro “Quarto de Despejo” tornando-a a primeira escritora negra brasileira de reconhecimento internacional.
A história da Carolina de Jesus é um exemplo de esperança. De alguém que driblou as péssimas condições de vida para chegar ao reconhecimento público. Ela acalentou o sonho de dias melhores - mesmo em seus piores dias - enquanto buscava oportunidades para conquistar o sucesso. Que ela nos sirva de inspiração para os dias que virão.
O ano de 2020 ainda não será fácil para a maioria dos brasileiros. A economia não se refaz com toques de “pirlimpimpim”. Não há emprego para todos. Não há vagas nas escolas para todos. Não há leitos para todos. Ao mesmo tempo, só reclamar não muda o cenário. É preciso ter esperança, mas não basta só esperar.  
É preciso, efetivamente, agir. Carolina de Jesus conseguiu publicar seus primeiros poemas porque foi até um grande jornal oferecê-los. Não conhecia ninguém. Não teve a ajuda de ninguém. Teve iniciativa. Não teve medo de ouvir “não”. Insistiu no seu sonho. Quando o repórter apareceu no seu barraco, na favela, não foi obra do acaso. Esperança não significa esperar. Esperança significa construir.

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(Jornalista, professora, gestora das escolas Damásio Educacional e Criar Redação em Araçatuba) 
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