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DOM REGINALDO ANDRIETTA, DOIS ANOS NA DIOCESE:

“Os argumentos usados para essa reforma previdenciária são enganadores”
04 de fevereiro de 2018
Dom Reginaldo, à direita, afirma que deu continuidade ao planejamento diocesano existente no tempo de Dom Demétrio
D. Reginaldo Andrietta completou dois anos à frente da diocese de Jales na última quarta-feira, dia 31de janeiro, mesma data em que seu antecessor, Dom Demétrio, comemorou 78 anos. A responsabilidade é enorme. São 45 municípios, com uma população aproximada de 360 mil habitantes ministros leigos. Não bastasse isso, ele é o bispo referencial da CNBB para o Mundo doTrabalho, missão para a qual foi alçado por força de sua larga experiência inclusive internacional.Ou seja, é um homem ocupado que trabalha muito e dorme pouco. Esta entrevista, por exemplo, começou a ser costurada após a missa das sete e meia da manhã, na Catedral, dia 14 de janeiro, e só foi concluída na última quinta-feira, dia 1º de fevereiro.  Mas, valeu a pena. Ele respondeu tudo o que lhe foi perguntado  sem rodeios...(D.R.J.)

J.J. -Qual o balanço resumido que o senhor faz deste segundo ano de administração?
DOM REGINALDO - O meu segundo ano de ministério episcopal na Diocese de Jales foi orientado, sobretudo, pelo desenvolvimento do planejamento pastoral participativo iniciado em julho de 2016, com o curso que eu mesmo ministrei aos presbíteros e agentes de pastoral de toda a Diocese, a respeito dessa temática. Os princípios fundamentais do planejamento diocesano existente até então, foram resgatados. Demos continuidade a esse planejamento, integrando nele o processo de análise da realidade, a identificação de desafios principais que emergem da realidade, a definição de objetivos específicos da Diocese, em sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, bem como as metas a serem alcançadas por atividades realizadas de modo mais refletido. A reflexão sobre as atividades é muito importante para evitarmos um ativismo sem resultados significativos. Doravante, essas atividades devem estar em sintonia, focadas na missão, exercida comunhão, pois nossas ações pastorais, sempre muito válidas, são comumente fragmentadas. A título de exemplo, as paróquias de um mesmo município e da mesma região, devem atuar mais em conjunto em função de problemas comuns enfrentados pela população desse município e dessa região. As pastorais, os movimentos e os projetos sociais da Igreja devem concentrar esforços na formação consistente de uma nova geração de cristãos leigos e leigas, como sujeitos na vida eclesial e social. O planejamento pastoral participativo tem dado resultados positivos, ajudando os que dele participam a fortalecer vínculos e visualizar ações comuns.

J.J. -O que mudou em relação ao primeiro ano, quando o senhor assumiu a Diocese?
DOM REGINALDO - Não houve mudanças. Houve avanços. Temos, hoje, um projeto pastoral diocesano melhor orientado, sobretudo do ponto de vista operacional, sabendo, é claro, que ainda se levará muito tempo para se criar uma cultura de planejamento participativo permanente, que integre mais as pessoas, os grupos, as comunidades, as paróquias, as pastorais, os movimentos e os serviços de Igreja. 

J.J. -Em sua opinião, o clero assimilou seu jeito de trabalhar? E os membros de pastorais?
DOM REGINALDO - Não se trata de um assimilar o jeito do outro. Trata-se de um esforço conjunto para nos entendermos. Isso tem ocorrido de modo progressivo, afinal a Diocese é muito grande. Ela tem cerca de 13.000 km2 de extensão; abrange 45 municípios, com uma população aproximada de 360.000 habitantes, a maioria católica; está composta por 51 paróquias e quase paróquias, com 236 comunidades; e conta 44 padres, 39 deles exercendo o ministério na Diocese, seis religiosas, uma missionária diocesana; três fraternidades, 9 seminaristas e 1480 ministros leigos e leigas instituídos. Estamos organizados em sete regiões pastorais. Realizamos, permanentemente, muitíssimas atividades de estilos variados desde o âmbito comunitário, paroquial, setorial e diocesano: celebrações de sacramentos, círculos bíblicos, cursos, novenas, catequeses, orientação familiar, assistência social, promoção humana, educação ambiental,meios de comunicação, ações cidadãs, romaria, retiros, semana missionária, exéquias, acompanhamento de enfermos e presidiários, capelania hospitar, asilos, centros de recuperação de dependes químicos, apoio sócio educativo a crianças e adolescentes, educação sobre os direitos dos trabalhadores e as responsabilidades empresariais, campanhas de solidariedade, educação escolar e universitária, missão humanitária com indígenas, serviço social voluntário e muitíssimas outras atividades, várias delas articuladas com as Dioceses da região e do Brasil. Os dois anos, portanto, de meu ministério pastoral nessa diocese, acompanhando todas essas atividades e muitas outras, foram de muito trabalho, com a colaboração de uma quantidade imensa de agentes pastorais a quem sou muito agradecido.

J.J. - Há leigos que não concordam com o conteúdo de seus textos e homilias por considerá-los excessivamente “políticos”. O que o senhor tem a dizer?
DOM REGINALDO - Ao considerarem os textos e homilias “excessivamente políticos”, certamente não querem dizer que não devam conter aspectos políticos. Provavelmente, não concordam com a ênfase dada à dimensão social, por estarem condicionados a pensar que a religião se centra exclusivamente sobre a pessoa. Muitos não têm uma formação cristã consistente que lhes permita compreender a Doutrina Social da Igreja, e muitos deles não têm sequer abertura para mudarem práticas incoerentes com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.O certo é que Jesus não agia ou falava para agradar os seus seguidores, senão para convertê-los. Fui constituído apóstolo de Cristo para a missão evangelizadora. Considero importante o que São Paulo diz em sua Segunda Carta a Timóteo 4,1-5: “proclame a Palavra, quer agrade ou desagrade, advertindo, reprovando e aconselhando com toda paciência e doutrina. Vai chegar o tempo em que não se suportará mais a doutrina, pelo contrário, os homens se rodearão de mestres que satisfaçam seu bel-prazer. Eles desviarão seus ouvidos da verdade e os orientarão para as fábulas. Quanto a você, seja sóbrio em tudo, suporte o sofrimento, faça o trabalho de um anunciador do Evangelho, realize plenamente o seu ministério”.Coloco-me sempre aberto ao diálogo sobre eventuais dúvidas a respeito dessa temática, bem como acolher sugestões para ser ainda mais fiel à missão que me foi confiada por Cristo.

J.J. - Recentemente, um de seus textos conclamando o povo a ir às ruas contra a Reforma da Previdência repercutiu no país todo. O senhor acha que a população está muito alienada?
DOM REGINALDO - No texto mencionado eu escrevi que a reforma da Previdência Social, se for aprovada, “dificultará o acesso à aposentadoria de milhões de trabalhadores, especialmente rurais, reduzirá drasticamente o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, que é o benefício assistencial ao idoso e à pessoa com deficiência, e cortará pela metade as pensões de viúvas e viúvos. Os argumentos utilizados para essa reforma previdenciária são enganadores. O déficit alegado é falso. Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade superavitária”. Escrevi também que “um sinal muito particular de respeito humano é a proteção às pessoas idosas, a ser garantida, especialmente, por uma aposentadoria justa”. O respeito às pessoas idosas é bíblico. Mostrei isso no meu texto dizendo que “clamam aos céus o desprezo sofrido por elas”. Seria incoerente clamarmos aos céus sem nada fazermos em defesa delas. Nossa população é alienada quando não entende o sistema de exploração que a submete a condições degradantes de vida, lhe nega direitos e a mantém no conformismo e na passividade, condicionando-a a transferir a Deus a responsabilidade de resolver seus problemas. Se nosso povo não reage de forma inteligente e organizada, não resta dúvida de que é alienado. Cabe-nos, como Igreja, despertá-lo para a ação.

Fotos: Bruno Gabaldi