quarta 14 abril 2021
Perspectivas

Dia da Mulher, o dia da hipocrisia

Não conheço data mais desinfeliz no Brasil do que o Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado amanhã, dia 8 de março. Aqui, essa celebração só serve para ilustrar o bordão do “país da piada pronta”. Talvez, nessa mesma categoria, só caibam também o Dia do Índio e o Dia da Consciência Negra.

Em uma terra onde uma mulher é morta a cada sete horas, o massacre contra os índios é histórico e persiste até os dias de hoje, e onde se respira racismo estrutural em todos os setores da sociedade, tudo cheira mesmo a hipocrisia.

Amanhã, cada florzinha distribuída por patrões, empresas ou entidades públicas será um tapa na cara das mulheres conscientes, que todos os dias lutam para sobreviver aos vários tipos de violência: física, sexual, moral, patrimonial, psicológica, entre tantas outras.

Os números falam por si só: três brasileiras são mortas por dia no Brasil por namorados, maridos, companheiros ou ex que não aceitam a separação. Ou simplesmente porque são mulheres, estão despontando nas suas áreas de atuação, como a vereadora Marielle Franco, e despertam essa violência de gênero. O país é o quinto em um grupo de 84 nações no ranking do feminicídio.

Tão ruim quando o número alto de feminicídio são os casos de violência doméstica. A cada 2 minutos, uma brasileira sofre do grito ao espancamento, da retirada do dinheiro à prisão domiciliar, acorrentada, muitas vezes estuprada porque acredita-se que o seu corpo deve ser objeto de prazer do outro.

Mas esse número é subestimado. Os serviços especializados de acolhimento apontam que a maioria das mulheres não vai à delegacia dar queixa contra os criminosos. Elas não têm para onde voltar a não ser suas casas e precisam aguentar com os corpos a comida no prato dos filhos.

Atenção sociedade machista: Mulheres não querem florzinha uma vez por ano. Querem respeito o tempo todo! Querem as mesmas oportunidades de trabalho e os mesmos salários pagos aos homens quando exercem a mesma função. Querem a mesma carga de trabalho: nada de assumir sozinha as tarefas domésticas.

Querem vagas nas creches para deixarem seus filhos e poderem trabalhar sossegadas. Querem transporte urbano onde não sejam vítimas de crimes sexuais mesmo à luz do dia. Querem poder sair para se divertir com amigas sem serem importunadas. Querem dançar “funk” nas festas sem serem molestadas no ambiente de trabalho, como aconteceu recentemente com a deputada Isa Penna na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Todo esse investimento em propaganda para o Dia Internacional das Mulheres, todas as ações de empresas “voltadas para o público feminino” (como afirmam as peças publicitárias) será tudo balela para alimentar o ciclo vicioso do capitalismo se na terça, dia 9, o empregador dispensar a candidata porque “ela pode engravidar” ou pagar menos a funcionária porque ela é mulher.

Um mundo sem o Dia Internacional da Mulher seria bem melhor porque já teríamos alcançado a igualdade de gênero, o respeito e a dignidade.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista, professora e empresária do setor da educação) 

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