segunda 06 julho 2020
Perspectivas

Dia da Mulher: comemorar o que?

É uma hipocrisia comemorar o Dia Internacional da Mulher em um país onde pelo menos 12 de nós são mortas, por dia, vítimas de feminicídio. Assassinadas brutalmente por homens que acreditam que as mulheres são seus objetos, ou pior, consideram as mulheres como seres inferiores, sem valor.
É um absurdo pensar que no Brasil, onde a cada 7 segundos uma mulher é violentada fisicamente, sexualmente, psicologicamente, materialmente, as manchetes diárias dos veículos de comunicação possam ser esquecidas porque há no calendário uma data especial.
Para os desavisados que ainda não entenderam os novos tempos, aí vai um aviso: Nós não queremos flores em um dia do ano. Queremos respeito todos os dias. Não desejamos chocolates com bilhetes mimosos, sonhamos em chegar do trabalho de 44 horas semanais e dividir com os maridos e filhos todo o serviço doméstico.
Não queremos homenagens, temos o direito de pagamento igual ao colega homem que desempenha a mesma função. Não queremos sorrisinhos, queremos oportunidades de trabalho. É preciso que os patrões não olhem para nós como seres que poderão ter filhos – e consequentemente ganharão a licença-maternidade - e atrapalharão o negócio.
Não queremos abraços pelo Dia da Mulher, queremos menos piadas machistas, menos misoginia, menos assédio, menos estupros, inclusive nos ambientes de trabalho. Não queremos vantagens, só não aguentamos mais as desvantagens de ser mulher em uma sociedade patriarcal. E elas são muitas.
No imaginário coletivo brasileiro, a mulher tem que ser bela, recatada e do lar, como a mídia já modelou. Se usar batom vermelho, roupa curta (tipo short da Anitta) ou decotada é rotulada de vagabunda por boa parte da sociedade, preconceito que até bandido usa para justificar investidas sexuais contra menores de idade.
Ser mulher é um fardo em um país que não supera o fato de todos os seres humanos (homens e mulheres) serem iguais perante a lei, como garante a nossa Constituição desde 1988. Ora, se a lei nos torna iguais, por que os tratamentos diferentes?
O Dia Internacional da Mulher é uma data que não me diz nada. Na verdade, prefiro viver em uma sociedade que não tenha dia da mulher, dia do índio, dia da consciência negra, dia do idoso. 

Ayne Regina Gonçalves Salviano 
(é jornalista, professora e gestora educacional da Damásio Educacional e Criar Redação em Araçatuba)
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