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Depressão

Por Manoel Paz Landim
25 de fevereiro de 2019
Manoel Paz Landim
Na clínica cardiológica é comum atender pacientes deprimidos e seus acompanhantes. A equipe médica valoriza as queixas e procura associá-las às mais variadas formas de apresentação da doença. Quanto mais rápido for feito o diagnóstico, maior a chance de sucesso terapêutico.
A doença (depressão maior) afeta aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo e é uma das principais causas de incapacidade. É uma desordem biológica com grande impacto negative sobre a qualidade de vida (World Health Organization. Depression. Available at: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs369/en/ e National Institute of Mental Health. Questions and Answers about the NIMH Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression (STAR*D) Study — Background. Available at: https://www.nimh.nih.gov/funding/clinical-research/practical/stard/backgroundstudy.shtml)
Nem sempre os sinais e sintomas são aqueles mais conhecidos pela população, como a tristeza. A perda do interesse pelas atividades cotidianas, os sentimentos de culpa e de menos valia são outros menos conhecidos e que, infelizmente, são atribuídos a distúrbios de caráter.
Um dos maiores equívocos é praticado pelas pessoas que estão mais próximas, exatamente pela desinformação. A concepção equivocada de uma doença potencialmente letal pode piorá-la, ainda que envolta pela mais sincera vontade ajudar. A expressão “você precisa se ajudar” tem efeito contrário. Exige do doente uma resposta que ele é incapaz de dar. Como sustentar essa afirmação quando o inquérito diagnóstico inclui textualmente a “falta de energia e de forças”, a “dificuldade de concentração” e as “alterações no apetite” (P.Bech et al, Journal of Affective disorders 66 – 159-164)?
Pedir para um paciente deprimido ajudar-se é semelhante a exigir de um diabético que faça seu pâncreas produzir insulina ou que um sequelado de AVC volte a movimentar os membros afetados pela lesão neurológica. As doenças que não são interrompidas pelo tratamento obedecem um curso natural. Assim, a pessoa com lesão renal que não se submeta à terapêutica convencional evoluirá para a falência do órgão, restando – então – o transplante ou diálise. Da mesma forma, quem tenha fatores de risco para doença coronariana, se não intervier, terá infarto.
A evolução natural da doença grosso modo chamada depressão é o suicídio. Um desfecho exatamente igual ao infarto e à insuficiência renal. A diferença é que às outras não se atribui a uma fraqueza da alma ou a uma falta de vontade de se ajudar. As religiões também prestam um desserviço, desde a Torá que reputa mau aquele que comete suicídio e não respeita os onze meses que a alma leva para se desprender do corpo (Maimônides, 13 princípios da fé), negando-se – inclusive – um sepultamento na área comum, até o Código de Direito Canônico que atribui ao suicida infração ao cânone código 2281 por ele ser “contrário ao amor do Deus vivo”. Propositalmente ignoro as outras denominações religiosas.
A única ajuda de que o deprimido necessita é a que lhe pode ser prestada pelos medicamentos e pelos diversos tipos de terapia, que cabem unicamente ao psiquiatra indicar. Todo o restante é igualmente importante, mas como apoio, presença, amizade, amor, assistência e – sobretudo – compreensão e entendimento.

Manoel Paz Landim 
(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da  FAMERP, São José do Rio Preto)