domingo 28 novembro 2021
Artigo

De salto alto, e para trás

MEDICINA/EVIDÊNCIA

Ainda existem pessoas do gênero masculino que se auto intitulam ‘homens’ e que criticam o dia das mulheres desdenhando a sua necessidade. São aqueles que acham bonito falar alto, cuspir no chão, gritar ouvindo música sertaneja, rebaixar o carro e circular com eles mantendo o som ligado num volume que permite ser escutado na cidade vizinha. Os argumentos deles são tão vazios e limitados quanto suas capacidades de raciocínio. Não se sustentam e, por isso, nem merecem ser reproduzidos. Via de regra são idênticos aos usados para justificarem a desnecessidade de outras datas tão importantes quanto, como o dia do orgulho LGBTQIA+ e o dia da consciência negra. A cegueira que os envolve enxerga equidade entre os lados, como se todos usufruíssem das mesmas oportunidades, sem distinção de fronteiras e de raças.

Algumas condições médicas até poderiam ser taxadas de discriminatórias por quem não esteja atento às reais diferenças entre os organismos dos homens e das mulheres, mas quem as interprete assim está apenas tentando aplicar falsa erudição à discriminação que lhe é intrínseca. Em termos cardiovasculares, as mulheres têm menos doenças que os homens até os 65 anos de idade e isso é fato. Após essa idade, porém, as estatísticas revelam exatamente o oposto e a edição de 6 de julho de 2021 do “The American Journal of Cardiology ” publicou a pesquisa feita pela Dr.a Alexandra C. Murphy, do departamento de cardiologia do Austin Health, em Melbourne, Austrália, ratificando esse tema (Comparison of Long-Term Outcomes in Men versus Women Undergoing Percutaneous Coronary Intervention, VOLUME 153, P1-8, AUGUST 15, 2021).

O grupo de autores capitaneado por ela verificou que as mulheres submetidas a intervenção coronária percutânea – angioplastia com ou sem implante de stent – têm a mesma sobrevida quando comparada aos homens, apesar das diferenças já descritas. E é justamente por causa dessas diferenças que as pesquisas desenvolvem muito mais terapias baseadas em evidências direcionadas aos homens, em comparação com as mulheres. Então, em resumo, poderíamos brincar dizendo que o sexo frágil acaba tendo a mesma sobrevida que o sexo macho, apesar de ter menos recursos para isso. E para ficar ainda maior essa “lambuja”, as mulheres que foram estudadas tinham idade avançada, maior índice de diabetes, além de disfunção renal.

E qual é a implicação prática deste achado? – A Dr.a Murphy esclareceu que “a implementação de uma diretriz direcionada ao tratamento da mulher portadora de doença coronariana é uma prioridade de saúde pública e os estudos futuros certamente se debruçarão sobre o assunto, de modo a esclarecer pontos ainda hoje obscuros no paradoxo representado pela diferença existente entre os gêneros”. Essa afirmação se ancora nos dados da literatura atual, que registra um contraste entre a evolução masculina e feminina. As mulheres aparecem com índices de mortalidade hospitalar para doença coronariana em torno de 9%, enquanto os homens têm 7,37%.

Essa pesquisa chama atenção para a necessidade de despender os mesmos esforços técnico-científicos sem olhar para o que se considere minoria. Principalmente se o grupo minoritário for composto por quem tenha o mesmo cacife de Ginger Rogers, quando afirmou em relação a Fred Astaire, que ela “fazia tudo o que ele fazia, só que de salto alto e para trás”.

SALTO

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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