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De: Prof. Britto Para: Pais de vestibulando

Por Eduardo Britto
09 de junho de 2019
Eduardo Britto
Querido pai e querida mãe: 
Espero que este recado encontre vocês com muita saúde e paz. Desculpe a intromissão ao adentrar num assunto tão particular mas, ao meu ver, fundamental na vida do seu filho. Infelizmente, tenho notado que nos últimos meses ele perdeu o sorriso que costuma carregar no rosto.
Até mesmo aquelas piadas bobas que faço para descontrair o ambiente pesado de estudo não tem resolvido mais. Os seus olhos permanecem parados e não esboça reação alguma. Nem mesmo reprova a qualidade da brincadeira. E isso preocupa.
Sei que é um assunto difícil de ser tratado e entendo que na sua época essa situação era resolvida, muitas vezes, de maneira impositiva. Mas, querendo ou não, estamos num novo tempo. Há uma transição de hábitos e costumes em curso que nem mesmo a nossa maturidade está dando conta de compreender. Imagina a cabeça de um adolescente que ainda está passando por vários questionamentos e precisa ser testado numa prova de 90 questão após meses, dias, tardes e noites de estudos, aflições e angústias. 
Você também pode dizer que adoraria estar no lugar dele porque, quem dera, só estudaria e mais nada. Não diga isso, pai e mãe! Em hipótese alguma é só estudar. Sou professor de geografia e acho a disciplina extremamente complexa e difícil. O seu filho tem que dominá-la e outras 9 disciplinas e com um detalhe crucial: ele não sabe o que será cobrado ao certo na hora da prova. A pressão interna é muito grande e pode deixá-lo triste.
Outra coisa, pai e mãe: você deu uma olhada no quarto dele? Percebeu se ele anda muito fechado ou quieto? Dê uma verificada se está tudo bem por lá. Não se trata de uma investigação para descobrir algo de errado. É uma questão de averiguar se está tudo bem. Evite perguntas óbvias. Dê apoio. Incentive. Ofereça ajuda. Ele pode gostar porque se sente muito sozinho e tem medo de ser subjugado caso não passe. Ele não quer um amigo ou um juiz de direito. É só o ombro do pai ou da mãe. A sua ausência pode ser a causa da tristeza.
Pai e mãe, vocês já sabem o curso que ele vai prestar? Sabe qual a função e o papel da profissão que ele escolheu na sociedade? Dê uma pesquisada e busque sobre o que seu filho será no futuro. Fala com ele sobre o mercado de trabalho, a atuação diária, os cargos possíveis e o prazer de fazer o que gosta. Jamais fale de salário, ok!? Ah... a escolha é dele, jamais sua! Se você estiver barrando a vontade dele, pode estar aí o rosto tristonho. Ele pode se sentir intimidado por desapontar você ao não escolher o que não te agrada. Mas, lembre-se: não é sua profissão que está em jogo. É a dele! Só dele!
Pegue leve na cobrança. Oriente. Ajude ele a se organizar. Ajeitar um ambiente de estudo para ele também é importante. Tenha paciência e cuidado e respeite seu momento. É ele o foco das atenções e isso lhe assusta. Vá com calma porque esse peso lhe causa problemas e dúvidas.
Como está o tempo livre dele? O que ele tem feito nas horas vagas? Ele precisa de um tempo para ele ou para vocês. Incentive ele a sair, curtir e ter momentos de folga. Uma dica melhor ainda: faça algo juntos. Eu, por exemplo, cozinho com meu filho. Ele não gosta de futebol e eu não gosto desses games de computador. Então, achamos algo em comum. Isso pode ajudar a mudar o rosto dele.
Você percebeu se ele está inseguro? Isso é muito comum. Infelizmente. As vezes, um exercício que não conseguiu resolver, um conceito mal compreendido ou uma nota ruim no simulado/prova faz desabar o mundo na cabeça dele. Mostre que ele tem muitas habilidades e que ele sabe muito mais do que imagina. A falta de confiança pode deixar ele arrasado e o resultado pode ser o semblante abalado.
Agora, caso você não está conseguindo ajudá-lo e o seu rosto tristonho ainda persiste, não titubeie e procure um profissional. A cabeça humana é uma caixinha de surpresas e, nós pais, agimos pelo amor e pelo carinho. Porém, não conseguimos dar conta de tudo. Se tem condições, procure um psicólogo. Vai ajudar e muito. 
Espero ter ajudado.
Com carinho de professor e pai do Dudu e, futuramente, da Gabriela, Prof. Britto.

Eduardo Britto 
(Professor de Geografia do Colégio e Curso Objetivo de São Paulo, graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e Mestre em Ensino de Ciências pela UFMS)