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De alma lavada

Editorial
09 de setembro de 2018
“A política é como nuvem; a gente olha, está de um jeito, olha de novo e está de outro”. Esta frase, que passou para o folclore político como de autoria do senador Tancredo Neves, é, na verdade, de um conterrâneo dele, o deputado federal José Maria Alckmin.
Independentemente de quem foi o pai da criança, a verdade é que a frase cai como uma luva no que aconteceu em Jales nos últimos 40 dias. 
Vamos aos fatos. No dia 30 de julho, a Delegacia da Polícia Federal de Jales deflagrou a Operação “Farra no Tesouro”, desnudando as entranhas dos desvios que teriam sido praticados por Érica Carpi, ex-tesoureira e ex-diretora financeira da Prefeitura Municipal. 
Pelos levantamentos preliminares, o delegado Cristiano Pádua da Silva, titular da PF em Jales, calculou o rombo entre R$ 5 e R$ 10 milhões subtraídos do tesouro municipal ao longo de 10 anos, mais exatamente a partir de 2008.
Mais estranho ainda: a então servidora tinha passado este tempo todo incólume, fazendo suas estripulias financeiras nas barbas do Tribunal de Contas do Estado, dos seus vários superiores hierárquicos designados por prefeitos de diferentes partidos e também dos órgãos de controle da Prefeitura.
Pelas características peculiares dos malfeitos, foi um escândalo que ecoou Brasil afora.  O efeito da notícia foi devastador. No mesmo dia e nos subsequentes, programas jornalísticos como “Bom dia Brasil”, “Jornal Hoje”, ”Jornal Nacional” e até o “Fantástico”, todos da Globo, e atrações policialescas como “Brasil Urgente”, da Band, e “Cidade Alerta”, da Record, deitaram e rolaram. 
Constrangidos, jalesenses que viajaram por outros estados, principalmente representes comerciais, tiveram que ouvir calados a zombaria dos interlocutores. Isto sem contar a chacota dos vizinhos. 
Jales, conhecida no país nos anos 80 e metade dos 90 pela excelência do time de basquete com craques da seleção brasileira e até egressos da NBA, e pela qualidade da uva temporã, grande sacada dos descendentes de japoneses, tornou-se o patinho feio, para dizer o mínimo. 
Mas, como não há mal que sempre dure, eis que, na semana que passou, os jalesenses puderam lavar a alma com a divulgação pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas” da avaliação do IDEB, o implacável Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
A média alcançada pela rede municipal de ensino de Jales foi de 7,8, maior do que a média do Estado (6,6) e a brasileira (5,8), batendo de longe Santa Fé do Sul, Catanduva, São José do Rio Preto, Votuporanga, Fernandópolis e Olímpia, além de Araçatuba e Ilha Solteira. Isto sem contar a performance da Escola Maria Olympia Braga Sobrinho, focada em Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano, que subiu ao pódio com a média 8,7, considerada a melhor do Estado de São Paulo.
A notícia sobre o assunto deixou os jalesenses de alma lavada. Mas, fora daqui, a repercussão não ultrapassou a área de abrangência da TV TEM, afiliada da Globo. 
É até compreensível. Nos cursos de jornalismo é ensinado que se um homem morder um cachorro, é notícia; se o cachorro morder o homem, não é.