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Curtindo reminiscências

por Juarez Canato
06 de maio de 2018
Juarez Canato
Há quem conceitua o saudosismo como sinônimo de nostalgia.
Outros entendem que não, que saudosismo é admiração excessiva por aspectos do passado, desde comportamentos, hábitos, princípios e outros ideais obsoletos.
Enquanto que nostalgia é uma condição marcada pela melancolia e tristeza decorrentes de um tempo que já passou
Sinônimo ou não, o certo é que somos suscetíveis a esses sentimentos, sobretudo quando próximos do crepúsculo vespertino da existência.
Às vezes fico a matutar sobre o meu passado vivido nesta cidade de Jales, desde a adolescência até a data de hoje.
Já disse em outra oportunidade, que cheguei a Jales em 1957, com doze anos de idade.
Recordo que naquele tempo o trem de ferro era movido a vapor e trafegava sobre trilhos de bitola estreita, e quase tudo era transportado pela Estrada de Ferro Araraquarense, principalmente transporte de passageiro, não havia estradas.
A chegada do trem em determinadas estações era praticamente um motivo de festa, nos domingos e feriados os jovens até faziam seus passeios e paquerações na plataforma.
Assim como ocorre hoje, Jales era uma cidade mal cuidada, tanto que não havia sequer guia, sarjeta ou passeio público, à exceção de parte da Avenida Francisco Jalles, entre a Avenida João Amadeu e Rua Seis.
Os passageiros tomavam o ônibus na Av. Francisco Jales, em frente à Padaria do Geraldo Bernini, ao relento, fizesse chuva ou sol.
Como diversão tinha sessão de cinema todas as noites e aos domingos havia vesperal, oportunidade em que a garotada aproveitava para realizar troca de revista em quadrinho.
Na ilha da Avenida Francisco Jalles havia árvores frondosas que faziam sombra sobre os bancos, ao contrário das palmeiras de hoje que, além de produzir pouca sombra, oferecem o risco de despencar suas longas e pesadas hastes sobre a cabeça do transeunte.
O que não faltava em Jales era charretes. Havia diversos pontos na cidade e, por ocasião do almoço, os charreteiros soltavam os animais onde hoje fica a Praça João Mariano de Freitas.
Havia enormes barrancos nas vias públicas, sobretudo na Rua Doze, problema que somente foi solucionado pelo então prefeito Roberto Valle Rolemberg, quando realizou o aterramento e a colocação de guias e sarjetas em toda a parte central da cidade e somente a partir daí Jales deixou ser uma vila.
O fornecimento de energia elétrica era absolutamente precário, posto que gerada a partir de um motor estacionário que ficava próximo ao Viaduto Antônio Amaro, e a débil iluminação pública somente era mantida até às vinte e duas horas.
Havia um serviço de alto-falante na praça e era operado pelo saudoso José Gatti e foi o primeiro instrumento de propaganda comercial na cidade. 
Em 1960 foi inaugurada a Rádio Cultura de Jales, com sede na Rua nove, em cima do então Restaurante Sinibaldi.
Na Emissora havia um pequeno auditório onde, aos domingos, compareciam as autênticas duplas sertanejas, isto porque, para gáudio dos habitantes da época, ainda não haviam inventado o malfadado sertanejo universitário.
Nas ondas da Rádio Cultura de Jales a população ouvia as músicas populares da época e os compositores daquele tempo, ao contrário dos de hoje, não misturavam o tu com você.
Em termos de ensino público, quem quisesse frequentar o curso ginasial tinha que submeter-se a um crivo denominado “admissão ao ginásio”. 
Ao contrário de hoje, quem não conseguisse ser admitido no curso ginasial público, tinha como alternativa o ensino particular.
Já os professores, bem ao contrário do que acontece atualmente, em que são constantemente vítimas de agressão moral e física por parte de alunos ou de seus representantes legais, eram reverenciados pela comunidade e recebiam remuneração justa e compatível com a importância e dignidade do cargo.
Finalmente, por ocasião das datas comemorativas, sobretudo no aniversário da cidade, havia desfile das escolas públicas e privadas, com a presença das autoridades locais, disputa de fanfarras uniformizadas e participação de lavradores a exibir seus produtos em carretas atreladas a tratores, um pouco diferente de hoje, em que a comemoração ficou restrita a cavalgada equestre e bovina, com farta estrumação da camada asfáltica.
Jales, 30 de abril de 2018.

Juarez Canato
(é advogado em Jales)