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Cotubaina aos domingos à noite

Por Marçal Rogério Rizzo
21 de outubro de 2018
Marçal Rogério Rizzo
Particularmente tive uma infância simples, mas muito feliz. Até hoje tenho lembranças dos domingos daqueles tempos, com destaque, aqui, aos da década de 1980. Normalmente eram dias agitados. Dias em que as crianças brincavam muito. 
Morava em um sítio recheado de árvores frutíferas e de pastos formado pela grama “Mato Grosso” para jogar futebol. Ali recebia a visita de vizinhos, amigos e parentes. Acordava cedo para assistir ao Globo Rural, uma vez que morava no sítio e me interessava por programas que tratassem de temas relacionados com ao meio rural. No café da manhã, sempre tinha o pão caseiro, a manteiga caseira feita a partir da nata e o café com leite; aliá, leite vindo direto da vaca, e não da caixinha ou do saquinho. Às vezes pedia a minha mãe que fizesse um chá mate. 
Já no almoço tinha um cardápio de dar água na boca. Tradicionalmente, era uma bela macarronada com frango ou carne moída, ou polenta com frango. O tempero era feito com colorau, tomate e cheiro verde, tudo produzido ali mesmo. A maionese caseira também sempre fazia parte do menu. Refrigerante no almoço? Nem pensar! Não existia esse hábito de tomar tanto refrigerante em todas as refeições aos finais de semana.
As tardes de domingo eram brincadeira pura para a molecada dos sítios. Ali andávamos de bicicleta, brincávamos de esconde-esconde e pega-pega; jogávamos bola, soltávamos pipa, subíamos nas árvores para apanhar frutas, entre muitas outras diversões. 
Tênis ou outro calçado? Nem pensar!. Tudo de pés descalços e, assim, a sujeira imperava. Para a angústia das crianças, o dia chegava ao fim, e a hora do banho brotava. O sol ia-se pondo e dando lugar à lua. O que me acalentava era poder assistir ao programa dos Trapalhões, que era a grande sensação da época. Era um programa humorístico que passava na Rede Globo aos domingos à noite, antes do Fantástico. Didi, Dedé, Zacarias e Mussum faziam a família toda rir desde 1977.
A janta era em família. Saíamos da mesa e íamos para o sofá – e logo vinha o copo cheio de Cotubaina. “O” copo, em razão de realmente ser um copo por pessoa da casa. O copo era do tipo conhecido como copo americano. Minha mãe abria uma garrafa de 600 mililitros e dividia por 4 pessoas da casa. O gosto era especial, e eu saboreava lentamente cada gota daquela bebida inesquecível. Parecia o “mel dos deuses”, e os Trapalhões, o melhor programa de humor do mundo. Já sabia que ia tomar apenas aquele copo. 
O engraçado é que as tubaínas nessa época eram bebidas não alcoólicas consideradas de consumo popular: eram consumidas pelas pessoas que tinham menos recursos financeiros. Existiam vários fabricantes no Brasil e normalmente eram regionalizadas. Na região de Jales, consumiam a Cotubaina que era produzida pela Refrigerantes Arco Iris Ltda. que foi fundada em Tanabi/SP em 1958 e, em 1969, transferiu a fábrica para São José do Rio Preto/SP.  O vasilhame era retornável: levava-se uma garrafa vazia para comprar uma cheia.
Para quem, por algum motivo, estiver fazendo comparações, realmente os tempos são outros. Hoje, existem vasilhames e garrafas de vários tamanhos. Existem as garrafas maiores, com dois ou até mesmo três litros, e muitas famílias se esbaldam devorando-as em uma refeição, ou até mesmo consumindo mais de uma garrafa. 
O fato é que sempre virá a desculpa de que é só nos finais de semana ou quando se come fora de casa que se consome tanto refrigerante. Mesmo que seja assim, talvez para quem beba refrigerantes com frequência e em grande quantidade tal prática eventual esteja contribuindo para que isso se torne algo comum, e, claro, para que se perca o sabor da ocasião de estar degustando algo que realmente pareça mais gostoso. 
Ainda hoje tenho na memória o sabor do líquido e o cheiro do copo americano de Cotubaina sendo degustado no assistir dos Trapalhões aos domingos à noite...

Marçal Rogério Rizzo 
(Economista e professor da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)