quinta 22 outubro 2020
Perspectivas

Complexo do vira-lata

Sol intenso, baixa umidade do ar e ausência de chuvas intensas e regulares. É esse o retrato de boa parte do Brasil, país de tamanho continental, mas em especial, a região noroeste paulista. O tempo seco favorece a incidência de queimadas nas áreas de mata ou pastos. Mas não se pode atribuir os incêndios a atuação divina que não envia para cá boa quantidade de precipitação. O Criador fez o homem e lhe concedeu o livre arbítrio e com isso, grandes responsabilidades, as quais nós temos nas queimadas que estão a ocorrer nesse período.

Alguns incêndios surgem de forma culposa (sem a intenção), como por exemplo, descarte indevido de ponta de cigarro, acondicionamento irregular de resíduos recicláveis. Há fogo com dolo (intenção) como o uso de técnica retrógrada de limpeza de terrenos, prática das tribos indígenas. O fogo, uma vez iniciado propositalmente (dolo) não é possível controlá-lo, consumindo o que tem pela frente.

Mas além dos particulares, que adoram se pôr como vítimas, furtando de suas responsabilidades, o Poder Público também pode (deve!) agir, para evitar incêndios, ou ainda, diminuir a sua incidência, através de medidas preventivas. Algumas áreas públicas devem sempre ter manutenção e limpeza. Defende-se, quando o caso, a realização de aceiros (faixas sem vegetação rasteira que visa impedir a passagem de fogo) ou plantio de árvores de espécies perenes (que não perdem folhagem em épocas de seca), se mantendo sempre verdes.

Dito isto, no último dia 17 de setembro foi o aniversário de um ano do grandioso incêndio no Bosque Municipal Aristóphano Brasileiro de Souza. Segundo apurações preliminares, o fogo iniciou em terreno particular, paralelo ao Bosque, em área frequentada por usuários de drogas. Devido aos fortes ventos, o fogo rapidamente se alastrou, invadindo o Bosque Municipal, consumindo 70% de toda sua área.

Após um ano dos fatos, houve ações por parte da gestão local para adequações do espaço, com medidas preventivas de novos incêndios, o que é preciso ressaltar e aplaudir. Entretanto, é preciso ir mais além.

O espaço do Bosque Municipal pode ser muito melhor aproveitado, levando em consideração a ausência de parques em Jales. Criação de boas trilhas, espaço adequado para caminhadas ou parques infantis, tirolesas, etc., são algumas das possibilidades que podem ser realizadas naquele espaço. Se “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Lavoisier) e “na tv, nada se cria, tudo se copia” (Chacrinha), ações positivas de outras cidades devem ser transformadas, copiadas e aqui implantadas.

Por final, é curioso o complexo do vira-latas, criado por Nelson Rodrigues. Os cidadãos fazem turismo nas cidades vizinhas em detrimento de Jales. Talvez porque aqui não há lugares para lazer. Para isso o Conselho Municipal de Turismo de Jales (COMTUR) deveria ser mais atuante e fazer valer o título de Município de Interesse Turístico (MIT). As forças devem se somar para resgatar para Jales o protagonismo que certa vez desfrutou.

Gustavo Alves Balbino

 (Advogado, Mestre (Stricto Sensu) em Ciências Ambientais, filiado a ONG SOS Mata Atlântica. E-mail: balbino_gustavo@hotmail.com)

Desenvolvido por Enzo Nagata