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Coleção de homenzinhos de doce

Por Marçal Rogério Rizzo
28 de abril de 2019
Marçal Rogério Rizzo (Economista e Professor da UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)
Era uma manhã de sábado. Saí de casa e fui até uma loja de brinquedos para comprar um presente para uma festa de criança que aconteceria à noite. Meu filho me acompanhava para dar dicas do que o amiguinho poderia gostar de ganhar. Crianças se conhecem e, claro, conhecem os gostos de outras crianças. Meu molequinho tinha apenas seis anos de idade e já havia colecionado carrinhos da Hot Wheels e agora queria colecionar miniaturas de Imaginex. 
Confesso que o primeiro Hot Wheels fui eu quem comprou. Logo quando soube que seria um menino. Nem havia chegado, e já tinha um carrinho da Hot Wheels. Era um furgãozinho americano azul, até parecido com o furgão do Scooby Doo. Ali se iniciaria mais uma coleção.
Colecionar é um ato interessante. Quem nunca colecionou algo? Quando criança e adolescente, eu colecionava cada coisa estranha... Embalagens de cigarro vazio; calendários de bolso; caixinhas de fósforo; latinhas de refrigerante; chaveiros; canetas esferográficas de propagandas; cartões postais; cartão do chocolate Surpresa; figurinhas dos chicletes Ploc e Ping Pong.  Até panfletos de propaganda política já colecionei... Tinha colegas de escola que colecionavam bonés, selos e moedas antigas.  O que desejo relatar aqui é, no entanto, uma coleção de homenzinhos (cowboys ou índios) que vinham em um doce de banana em formato de triângulo. Os homenzinhos vinham espetados nesses doces.
Parece que, lá na roça, os sabores dos doces eram diferentes; eram mais saborosos. Devorava os doces já pensando nas possíveis brincadeiras que viriam a seguir. Não posso imaginar um mundo sem doces e sem brincadeiras...
As guloseimas chegavam semanalmente trazidas pelo meu pai. Era o ritual dos sábados à tarde. Após uma semana de trabalho, ele ia até a cidade fazer as compras da semana e distrair-se um pouco com os amigos. Passava na venda do jardim Arapuã e comprava nossos doces. Digo “nossos”, em razão de dividir os doces com minha irmã e minha mãe. Eram triângulos de banana, paçoquinhas e doces de abóbora em forma de coração.
Claro, para mim, um menino que adorava brincar, o mais gostoso era o triângulo de banana. Olhava com atenção cada homenzinho que chegava até minha mão. Estava espetado no doce, servindo como apoio, uma espécie de palito auxiliar, que me permitia comê-lo com mais obstinação. Antes de o meu pai chegar da venda, ficava pensando: Será que virá um cowboy? Ou um índio? Se fosse um cowboy, estaria armado com revólver ou espingarda? O índio estaria com a flecha, ou com uma lança? Ah... havia cowboy que tinha um laço. Outra dúvida que surgia era a cor do homenzinho. Azul? Amarelo? Branco? Verde? Sei lá... Eram várias as cores. Minha coleção era muito usada para brincar. Como era um devorador de filmes de faroeste, muitas coisas surgiam no mundo do faz de conta, da fantasia, brincando no quintal, debaixo de um pé de conde com os homenzinhos de doce. Não posso imaginar um mundo sem crianças e sem fantasia...
À época, não havia os personagens tão caros, elaborados e diversificados como os atuais Imaginex, contudo havia o Forte Apache da Gulliver, que, por sinal, também era muito caro e apenas poucos abastados possuíam tal brinquedo. As coisas simples como os homenzinhos de doce faziam parte da felicidade das crianças. Enfim... Não posso imaginar um mundo sem as brincadeiras simples, que, por sinal, são mais gostosas.

Marçal Rogério Rizzo  
(Economista e Professor na UFMS – Campus de Três Lagoas/MS)