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CANDIDATOS

Vencedores e perdedores
14 de outubro de 2014

Por que um sujeito com mais de sessenta anos, aposentado no topo de uma carreira de professor universitário federal, se candidata a deputado estadual, prevendo receber umas poucas centenas de votos? Por que não fica em casa, gozando das vantagens privadas desta situação?
Dois tipos de respostas cabem aqui.
No primeiro tipo o candidato expõe o seu nome, o seu sossego e o seu prestígio em busca de vantagens imediatas. Recebe dinheiro e vantagens indiretas em troca de seu empenho eleitoral. Partidos financiados abundantemente por empresas patrocinadoras se valem largamente destas trocas. Partidos ditos nanicos também fazem trocas no interior desta lógica negocial.
No segundo tipo o candidato ingressa na atuação militante em decorrência da adoção de princípios de uma identidade política, e humana, profunda e abrangente, nos pilares da existência.
Para quem está no PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, cabe o segundo tipo de resposta: a candidatura corresponde a uma concepção de ser, de mundo, de sociedade, de política e de ação e de prática, como momentos articulados em uma totalidade, com sua dinâmica, contradições e sínteses.
Uma avaliação do processo eleitoral no recorte de uma candidatura a deputado estadual com estas características, para ser minimamente aceitável, requer a colocação dos aspectos qualitativos à frente dos aspectos quantitativos dos votos.
A ausência de visibilidade da candidatura começa pelos impedimentos legais de aparecer nas mídias. Os horários eleitorais, emblematicamente, isto é, servindo de modelo e de síntese, de outros campos, embora legais e aparentando mostrar as opções ao eleitorado, na realidade, eles tratam de esconder e impedir novidades fora do controle de quem manda. Normas feitas por parlamentares, distribuem o tempo aos partidos de acordo com o número de parlamentares de cada sigla. Isto é conservadorismo; é astúcia. Impede a chegada ao espaço público, eleitoralmente, de quem não pertence ao seleto clubinho. Multiplica as reeleições. Mantém a mesmice a grasnar o discurso das mudanças.
Na televisão, estrutural e logicamente, tudo favorece os palhaços.
Uma candidatura a deputado estadual pelo PSTU, em Jales e região, para falar aos trabalhadores e trabalhadoras, diretamente, encontra outros impedimentos. O predomínio de um sindicalismo burocrático e conservador, para não dizer pelego. A multiplicação de sindicatos e suas filiações a uma diversidade de centrais, em sua maioria de perfil tradicionalmente conservador, patronal, ou então, governista, torna morta uma vasta área de ação para uma candidatura socialista.
Restam poucas brechas para a construção de uma ação política para além das eleições e da campanha. Percorrer os acampamentos e os assentamentos de sem-terra, mas em combate recorrente a práticas viciosas muito disseminadas, principalmente pelo governo de frente popular, em anos e anos de tentativa de fazer dos movimentos sociais a continuidade de seus gabinetes. Osjovens e as mulheres, quase sempre sem organizações combatentes; ou pior ainda, mobilizados em setores ditos de serviços: chiques e conservadores.
Nos movimentos culturais as atitudes de combate quase não existem. Domina a postura mágica, mística, de uma concepção de cultura distante da dura realidade material da vida de quem trabalha.
O PSTU é um partido formado por mulheres e homens em comprometimento com a luta por um mundo justo e igualitário, um mundo socialista. Ao contrário da maioria dos partidos, não prioriza as eleições, mas a ação direta como meio de transformar a realidade e a vida. É um partido composto por militantes que atuam no movimento sindical, estudantil e popular.
Mas para que um partido? Muitos ativistas engajados na luta sindical, estudantil ou em movimentos sociais e populares, na luta diária não fazem e não se fazem, a pergunta. Só a luta muda a vida. As mudanças tendem a ser temporárias no sistema capitalista. Não duram. Sem um sentido estratégico as lutas e as conquistas não se consolidam. Para os homens e as mulheres da classe trabalhadora não basta um partido: é preciso um partido socialista. Para navegar nas lutas é preciso um partido socialista: preciso de necessidade; e preciso de precisão. Um partido socialista é uma bússola, uma orientação.
O PSTU é herdeiro de uma tradição de lutas. Apresenta uma história, um programa e um funcionamento consolidados.
Uma ditadura disfarçada de democracia não representa os trabalhadores e as trabalhadoras. As campanhas dos candidatos dos chamados grandes partidos são bancadas por empresas. O PSTU não aceita dinheiro de empresas: sem empreiteiras, sem bancos, sem frigoríficos. Os empresários de Jales e região nunca vão financiar o PSTU e nem as candidaturas do partido. Por princípio, o partido não aceita ajuda do capital, das empresas. O partido, nas eleições e no dia-a-dia, se mantém por meio de recursos de seus próprios militantes. Isto faz toda a diferença. Os setores mais conscientes da classe trabalhadora bancam oPSTU e sabem: quem paga o jantar escolhe o cardápio. Ou seja: quem financia as eleições, recebe, com lucros, depois. O PSTU sempre teve uma estratégia socialista, uma definição de classe. Priorizando o caminho das lutas e da ação direta, estrategicamente. E disputa eleições taticamente: um momento para ampliar o debate. E a eleição de parlamentares socialistas seria um importante ponto de apoio às lutas e de denúncia do sistema capitalista.
Como funciona o PSTU?
Os militantes –não confundir militante com cabo eleitoral, muito menos com assessores pagos com dinheiro público em empregos de disfarce– participam de reuniões periodicamente, regularmente. Estudam, discutem, executam as tarefas deliberadas, inclusive, as de apresentarem as respectivas candidaturas nas eleições. Os militantes contribuem materialmente; não se arrumam na vida por meio do partido. Isto é um partido socialista.
A vida de um militante segue alguns princípios: a mobilização permanente dos trabalhadores, a independência de classe, a perspectiva socialista e revolucionária, o internacionalismo, a democracia operária e o combate a todas as formas de opressão (machismo, racismo, homofobia, etc).
O programa do PSTU prevê desde uma segunda independência para o Brasil sob o controle da classe trabalhadora, e não da família real, a uma revolução agrária, e outras políticas básicas, no horizonte classista dos trabalhadores.
Por que a candidatura? Para além das eleições há em Jales, em São José do Rio Preto e na região, um campo imenso e virgem de construção política efetiva. O próximo passo é a legalização do PSTU em Jales: de fato, ele já existe.
Construir um mundo de plenitude humana: organizar a abolição da sociedade de classes (outro tempo era a abolição da escravidão!). Estabelecer uma sociedade baseada no trabalho livremente associado. Eis o sentido fundamental de uma candidatura nas eleições de 2014. Eis o socialismo.

  Antonio Rodrigues Belon
(Professor aposentado)