jornaldejales@melfinet.com.br
17 3632-1330

Cambridge Analytica é só a ponta do iceberg de uma Internet centralizada

por MARINA NOSSA NETO
02 de abril de 2018
MARINA NOSSA NETO
Cambridge Analytica está na capa de todos os jornais, chamadas de sites de notícias diárias e de tecnologia, motivando até campanha com hashtag #DeleteFacebook. A empresa construiu o próprio complexo de coleta de 50 milhões de dados pessoais de usuários do Facebook, episódio revelado pelo hacker Chris Wyllie. No auge da polêmica, a maioria dos repórteres se concentraram no significado do consentimento da era digital e na incapacidade do Facebook em aplicá-lo. Essa maioria de jornalistas ativos na cobertura sobre a CA estão, na verdade, perdendo a visão geral. A escala da operação só foi possível porque o Facebook retém muitos dados sobre quase metade da população global. A Cambridge Analytica é um conto preventivo sobre os riscos de centralizar dados e controlar os fluxos de informações. Estamos fluindo em um mar de desinformação quando devíamos enxergar que a Internet e a Web foram projetadas para descentralizar dados e poder econômico. O uso do Facebook pela Cambridge Analytica é um exemplo do que um sistema com um único ponto de falha pode ser capaz.
Vemos com frequência pessoas dizendo que a Internet está arruinada. Esse tipo de alegação é exemplo de uma “raiva” mal direcionada. Mas é o contrato social aplicado às relações interpessoais que está arruinado. A desigualdade vem apenas aumentando e as tensões associadas à injustiça estão se espalhando pelo espaço online. Como a Internet facilita a coleta de dados estruturados e análise estatística, ela nos permite medir e revelar as tensões sociais globais como nunca antes visto.
A internet, com sua capacidade de facilitar a comunicação, agregar opiniões e coordenar milhares de pessoas em tempo real, é sem dúvida a ferramenta mais poderosa à nossa disposição para resolver os problemas sociais em questão. A Internet que conhecemos hoje facilitou a coordenação de mulheres em torno do movimento #MeToo, já que permitiu o crescimento do Black Lives Matter, mencionando dois exemplos recentes. Estupro, misoginia e violência policial racial não são questões novas, mas a internet forneceu uma plataforma para essas conversas encobertas acontecerem de maneira transparente.
O problema com essa raiva mal direcionada é que nos leva à políticas mal direcionadas que podem minar a capacidade da Internet de catalisar mudanças sociais tão necessárias. Precisamos garantir que, quando refletimos sobre a política da Internet, pensemos sobre isso com uma lente política: Como podemos garantir que a Internet nos permitirá, como cidadãos, compartilhar livremente ideias, coordenar em torno de interesses comuns e agir em defesa de nossos direitos e interesses? Como podemos garantir que as pessoas tenham essas conversas como um direito hoje e no futuro? Como podemos garantir essas proteções, mesmo em cenários em que os poderosos no topo da hierarquia de governos sentem-se profundamente desafiados pela capacidade de coordenação das pessoas?

Centralização e Descentralização da Web

A centralização é o processo pelo qual os intermediários reformulam a internet e a Web, colocando-se como “guardiões” de um fluxo de informação. No contexto de uma rede cada vez mais centralizada, o ethos da Cultura Hacker de “agir rápido e danificar as coisas”, que promoveu e impulsionou inovações audaciosas há uma década, tornou-se profundamente problemático. Cada “erro” na internet centralizada de hoje causa danos a milhares, senão a milhões. E os desenvolvimentos tecnológicos estão incrementando os poderes de intermediação que oferecem às corporações que agora empregam o que costumava ser uma multidão de codificadores gratuitos.
A descentralização é criar barricadas arquitetônicas para esse processo, de modo que o poder permaneça distribuído pela rede. A batalha pela rede acontece hoje e todos os dias. Honestamente, não há soluções diretas. Cada turno implica escolhas difíceis. Portanto, é hora de envolver o maior número possível de pessoas nesse processo sobre pensar, desenvolver e aplicar soluções. Sem surpresa, precisamos estar cientes não apenas do poder que esses intermediários exercem sobre a política, a academia e o setor privado, mas a maneira como se aprofundar em alguns desses tópicos se tornou um interessante e inaceitável tabu.
A batalha para garantir que a Internet continue sendo uma ferramenta para que os cidadãos criem uma sociedade mais justa será nossa companheira constante ao longo da próxima década. Essa batalha será acirrada. Com cada dia que passa sem um debate aprofundado sobre os nossos direitos digitais, as chances de vencê-la diminuam.

Marina Nossa Neto 
(é Jornalista, graduada pela FEF de Fernandópolis; Pós graduada em Teorias e Práticas em Comunicação, pela faculdade CÁSPER LIBERO; Mestranda em Jornalismo com ênfase em Comunicação e Cultura  na Universidade de Buenos Aires - Argentina ( UBA). Especialização voltada para o âmbito de Tecnologia e Informação e Comunicação ( TIC))