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Breve Histórico da Estrada do Taboado: Importância para Jales e região do Noroeste Paulista

CADERNO ESPECIAL ANIVERSÁRIO DA CIDADE 2019
14 de abril de 2019
Genésio Mendes Seixas
Tropeiros, boiadeiros, foras-da-lei, capturas (policiais dos tempos getulistas), religiosos, mascates e aventureiros, que trilhavam a nova estrada do Taboado em demanda ao vizinho Estado do Mato Grosso, faziam uma parada quase obrigatória numa fazenda construída em 1922, na travessia do córrego do Marimbondo. Casarão esse assoalhado, com vários dormitórios, levantado em alvenaria com pedra, toras de aroeira, tijolos e telhas vindos da distante banda civilizada transportados em carro de boi e lombo de burro.
Antecedentes históricos da cidade de Jales dão conta que o fundador, engenheiro Euphly Jalles, se hospedou nessa fazenda, no ano de 1927, a fim de realizar medições topográficas e determinação de limites da Fazenda Ponte Pensa. Foi daí a inspiração para a fundação de um povoado às nascentes daquele ribeirão. Sabia de antemão o engenheiro que no futuro se podia contar com o avanço da ferrovia então parada em São José do Rio Preto desde 1912. 
A ligação interestadual atendia a um antigo anseio de mato-grossenses e paulistas visando o estreitamento das relações comerciais e o entrelaçamento das culturas entre os dois Estados. Os rebanhos bovinos mato-grossenses aumentavam desordenadamente por ausência de vias de escoamento e os produtos industrializados em São Paulo, vendidos no Mato Grosso, alcançavam preços exorbitantes. De nosso lado, uma estrada que servia Araraquara, Jaboticabal, Rio Preto terminava em Tanabi e, a partir daí, uma trilha prosseguia até o córrego São João, num agreste quase sem ocupação demográfica, onde hoje se localiza Santo Antônio do Viradouro, município de Meridiano. Ali, carroças e cavaleiros viravam para donde vieram porque não havia mais caminhos até as barrancas do rio Paraná. Do lado oposto, à margem direita do grande rio, havia veredas para a distante Cuiabá via Santana do Paranaíba e Aparecida do Taboado, que na fase incipiente de formação, se chamava Lagoa Suja.  Ao sudoeste do porto chegavam também trilhas de Três Lagoas, outra vila afastada 45 quilômetros.
A Estrada do Taboado, cuja nomenclatura foi empregada por Euclides da Cunha enaltecendo-a como a “mais importante de São Paulo e do Brasil”. Por servir preponderantemente aos boiadeiros, ficou mais conhecida por Estrada Boiadeira em sua extensão com mais de 300 km do Porto do Taboado, no rio Paraná, até a cidade de Barretos. Rebanhos bovinos com centenas de cabeças passavam por nossa região rumando para o embarque ferroviário em São José do Rio Preto, ou prosseguiam tocados por terra para serem abatidos no maior frigorífico da América Latina, em Barretos.
No esplendor da Estrada Boiadeira, anos 1940, com passagem de 80 mil bois por ano, as boiadas em cordões vivos de reses, sob poeira retina, a passadas morosas, ao som do berrante, iam serpentando seguindo destino com demanda de semanas ou meses de viagem. Às margens surgiam as vendas (estabelecimentos para pequeno comércio) oferecendo cachaça, pólvora, querosene, sal, munição, fumo, tecido, lata de conserva de alimento e defumados. Não faltavam pensões, cabarés, formadores de invernadas, criadores, abatedores de animais e de homens. Não raro, alguns crimes. No prolongamento de seu leito escorreu sangue de desbravadores motivando o aparecimento de cemitérios, capelas e cruzes. Estas, aqui e acolá, ainda são encontrados como ruínas. Casarões e catacumbas, que escaparam das queimadas ou demolição, surgem nas trilhas carcomidas pelo tempo. Sertões remanescentes se opunham à civilização que se aproximava a passos largos. A monotonia se quebrava com o grito dos peões pacholas e sobranceiros, a cantiga do carro de boi, as notas do berrante, o relinchar das bestas, a melodia da seriema, o miado da pintada, o estardalhaço das araras, o mugir melancólico das reses e o estampido da garrucha. Hoje, sob sombras crepusculares, nada mais lembrando as trilhas das onças. Algumas daquelas vendas ou máquinas de beneficiar arroz deram origem à vilas ou cidades. Com a inauguração da ferrovia na última estação junto ao porto, Estação Presidente Vargas, em 1952, hoje Rubineia, a velha estrada quedou-se de vez. Só restam lembranças.
Passado meio século após o tiro de misericórdia nas atividades de rebanhos tocados, surgiram mentores, movidos pelo desejo de preservação, tentando sua ressurreição. Idealizaram um projeto de fundo cultural, histórico e geográfico o “Renascer da Boiadeira”, divulgado pelo Jornal de Jales, que consistia em reconhecer um trajeto coincidente, o quanto possível, com o antigo leito da estrada declinada partindo da cidade de Paranaíba até Barretos – atravessando 21 municípios numa extensão aproximada de 400 Km.  Uma cavalgada percorreu essa distância em 14 dias, partindo do ponto inicial com 18 cavaleiros, engrossando o conjunto em cada cidade do percurso e chegando ao destino com 170 cavaleiros durante o famoso evento barretense “Festa do Peão”. 
Governos municipais, gestores de cultura, esporte, turismo, eventos, imprensa, artistas, catireiros, cantadores, educadores, escolares, tropeiros, amazonas, saudosistas e memorialistas não faltaram com a receptividade para agilizar a execução do projeto Renascer da Boiadeira.

Genésio Mendes Seixas 
(jalesense, membro de Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Rio Preto)