quarta 14 abril 2021
Perspectivas

BBB: alienação, manipulação e muito dinheiro

Você gosta do BBB - Big Brother Brasil? Assiste ao programa? Um aviso: este texto não é para você. Não quero ofendê-lo(a) nem te magoar. Antecipo que defendo, antes de tudo, o seu direito de fazer o que quiser com o seu tempo e a sua vida. Mas é preciso chamar a atenção da sociedade para alguns aspectos relevantes que não podem persistir.

Confesso que nunca consegui ver um episódio inteiro em todos estes anos, o que dirá uma temporada completa. Parto do princípio que a estrutura dele é bizarra: confinar pessoas para produzir julgamentos de outras. Só a ganância de ganhar dinheiro a qualquer preço justifica isso. Ou seja, o público alimenta o capitalismo da pior forma.

Em se tratando de audiência, o programa é mesmo um sucesso (financeiro) para emissora. Em se tratando de qualidade, é um dos lixos que a TV brasileira, infelizmente, ainda produz. Não informa, não educa, e a se constatar pela atual versão, dissemina o ódio, maltrata pessoas, adoece participantes, banaliza a maldade.

Para quem estuda comunicação na academia, é fácil entender que quanto mais programas desse tipo, mais subdesenvolvido é o povo. O formato é uma mistura sofrível do que há de pior na sociedade e já foi descrito em obras clássicas da literatura e do cinema, como em “1984”, “O Show de Truman” e “O conto de Aia”.

Para quem não conhece, “1984” é um livro escrito em 1949 por George Orwell. A narrativa futurística distópica apresenta uma sociedade totalitária comandada pelo Big Brother, o Grande Irmão (de onde veio o nome do programa global). Ele tudo vê e tudo comanda por meio de aparelho que fica instalado na casa das pessoas (qualquer semelhança com os nossos televisores, é mera coincidência).

A sociedade de “1984” tem um Ministério da Verdade encarregado de apagar os fatos e criar mentiras de acordo com os interesses do Partido para alienar e manipular as pessoas. Qualquer semelhança, é mera coincidência.

Já no filme “O Show de Truman” (1998), o personagem principal vive sua vida inteira na frente das câmeras de um programa que leva seu nome. Mas ele não sabe de nada disso. Foi confinado em um mundo irreal apenas para satisfação de um diretor perverso, para diversão do público que esquece sua vida própria para viver a vida do outro e muito dinheiro para uma emissora de TV. Naquela história, o homem é desumanizado e rebaixado à condição de produto. De novo a coincidência.

Por fim, na obra “O conto de Aia”, de Margaret Atwood, que se transformou na famosa série “The Handmaid´s Tale”, outro futuro distópico mostra uma sociedade onde a mulher é oprimida e sofre violências de todos os tipos. A ideia de mulher-objeto, relações abusivas, machismos diversos, supremacia do patriarcado, entre outras, também regem o BBB.

Há quem acredite que o BBB pretende ser um entretenimento. Mas a verdade é que ele presta um desserviço quando confina seres humanos para expor o que eles têm de pior. Que ninguém se engane: ainda que alguns discursos possam fazer pensar, eles são direcionados pelos patrocinadores, ou seja, os participantes são animais em gaiola fazendo “gracinhas” para ganhar comida, que pode ser um impulso na carreira ou mesmo o prêmio de 1 milhão de reais.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É professora, jornalista

e semioticista)

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