Artigo

Atenção para o tempo

A gente sabe que o tempo não é fixo. Antes de Einstein mostrar que a velocidade da luz ser fixa leva a distorções no tempo (e no espaço), a gente já tinha essa noção: qualquer um que já tenha ido e voltado de qualquer lugar sabe que a volta é sempre mais rápida. O tempo passa devagar quando estamos indo; na volta, ele voa. O que não tem nada a ver com trânsito, estradas ou distância. A única coisa que mudou fomos nós.

Esse efeito da estrada frequentemente percorrida, como alguns o denominam, acontece porque na ida estamos cheios de expectativas, ansiosos (para bem ou para mal, se o nosso destino é agradável ou não, respectivamente) e os caminhos são novidade. Prestamos atenção em tudo, portanto, notamos detalhes, refletimos sobre o que vemos, comentamos com nossos companheiros. A ansiedade nos faz ligados, a novidade nos faz atentos. E, como reunimos e registramos muita informação num espaço de tempo determinado, parece-nos que ele é enorme. Essa é uma das maneiras com que o cérebro marca a duração do tempo: pela quantidade de memórias geradas – se há muitas memórias registradas, sentimos que o tempo foi longo; se há pouca coisa gravada, a sensação é de que foi curto. Na volta, por outro lado, o caminho já não é novo, a expectativa passou e deu lugar à satisfação (ou frustração), não há anseio por chegar. Desligados do entorno, mal reparamos no trajeto e, de repente, aqui estamos de volta. Há menos memórias no mesmo intervalo de tempo – que parece, por isso, ter voado.

A vida é um pouco assim: até determinada idade, tudo parece novidade, tudo é expectativa e possibilidade. Quem convive com crianças sabe que elas perguntam sobre tudo o tempo todo, reparam nos detalhes, lembram de minúcias. Os eventos se acumulam às dezenas, centenas por minuto, fazendo com que aqueles períodos pareçam muito longos, estendidos no tempo. Com os anos, vamos reduzindo as expectativas. Os eventos já não são novidade. Nos acostumamos com as coisas. Vamos deixando de prestar atenção aos detalhes. Existem poucas memórias novas por semana, só algumas por mês, não muitas por ano. E, com essa escassez de registros, o tempo parece breve. É quando ele começa a passar cada vez mais rapidamente. Quando vemos que os filhos cresceram. Os netos cresceram. As orelhas cresceram. O tempo restante diminuiu. De repente, a vida parece curta. Infelizmente, de modo geral, é só quando a vida fica longa que se percebe como ela é curta. Não deveríamos demorar tanto tempo para aprender que ele passa tão rapidamente.

Existe um movimento que nos desafia a reagir à correria do dia a dia, fazendo um esforço para desacelerarmos e olharmos em volta. O crescente interesse da sociedade e até dos cientistas em técnicas contemplativas vai na mesma linha: ele ganha força porque a vida fica insossa quando é rápida demais.

Quando temos a fortuna de notar que isso está acontecendo, podemos nos esforçar para reverter o processo antes que seja tarde demais. E voltamos a prestar atenção. A saborearmos os momentos. A nos maravilhar. E então, por mais que seja curta, a vida volta a nos parecer longa.

 Daniel Martins de Barros

(É psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, autor de ‘O Lado Bom do Lado Ruim)