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Após 30 anos vivendo como andarilho, pai é reencontrado pela família

por JAIRO MARQUES/ Folha de S. Paulo (Enviado especial a Jales/SP)
21 de agosto de 2017
Família reencontra José Lourenço, 74, andarilho dado como morto até o último mês
No descampado da rodovia Euclides da Cunha, nas proximidades de Jales (585 km a noroeste de SP), o frio da madrugada do último 4 de julho parecia ainda mais vigoroso, sobretudo para uma porção do Estado considerada muito quente. Fazia 6º C.
Uma lona preta à beira da estrada com alguns pertences ao redor chamou a atenção de policiais rodoviários. Eles foram checar do que se tratava. Era gente. Um homem de 74 anos, maltrapilho, quase congelado, quase morto. Tratava-se também de um pai desaparecido havia 30 anos.
José Lourenço Alves vagou de Norte a Sul do país durante o período. Deixou para trás, em São Paulo, a mulher, Maria Priscila, com 43 anos à época, e cinco filhos. Em três décadas, não fez nenhum contato, não deixou rastros.
Ora se fixava por alguns meses em alguma propriedade agrícola, onde fazia serviços braçais, ora vagava sozinho, como andarilho, vivendo com migalhas e exposto às intempéries. Também capinava quintais e fazia bicos.
“Ele corria sério risco de morrer congelado naquela madrugada em que foi resgatado. Chegou aqui, trazido pela polícia, tremendo de frio, pálido, com fome, debilitado”, diz Sirlei Lopes Barrientos Marcelino, coordenadora do Centro de Passagem para Migrantes e Pessoas em Situação de Rua de Jales.
Morto, por sinal, José Lourenço já estava, pelo menos para a família. A última vez que o viram foi no casamento de um dos filhos, em 1987. Estava alegre e não bebeu exageradamente, contrariando um hábito comum.
Naquele dia frio em Jales, depois de resgatado e restabelecido, José Lourenço listou aos assistentes sociais os nomes completos dos filhos, da mulher, de irmãos e de outros parentes. Deu ainda a referência de sua cidade natal, Barro (CE). A partir de então, o mistério do desaparecimento chegava ao fim.
“Sofri demais, passei muita fome, muita sede e fui ficando cego por causa das luzes altas dos carros na estrada. Quando deixei de enxergar a faixa branca [nas laterais das rodovias], comecei a ter medo de ser atropelado e andava mais de dia. Dormia em qualquer canto, debaixo da lona”, diz José Lourenço.

O REENCONTRO
Um misto de sensações tomou conta da família com a notícia do reaparecimento do pai. Foram diversas as discussões antes de decidirem tentar uma reaproximação com ele, de decidirem visitá-lo.
“No começo, não quis saber. Que pai é esse que some por tanto tempo? Foi a mãe quem insistiu para amparar o pai. Depois de pensar muito, comecei a me emocionar com a possibilidade de revê-lo, de saber o que aconteceu durante esse tempo todo de ausência”, afirma Iran Alves, 51, o primeiro filho a ter contato com José Lourenço.
Iran, que é funcionário da Folha, foi até Jales, no meio de julho, e deslocou o pai para o Lar dos Velhos São Vicente de Paulo, onde está vivendo até hoje, ao lado de outros 61 idosos. A recomendação dos assistentes sociais é que ele fique um período no local -de dois a três meses- para se restabelecer física, mental e emocionalmente antes de tentar voltar à família.
“Com três minutos de conversa com meu pai, mudei meu conceito sobre ele, que não é mais o alcoólatra do passado. Vi uma pessoa sábia, com boas ideias, sensível, carente. Penso que ele se cansou de andar pelo mundo e, agora, quer estar perto dos filhos no final da vida. Quero cuidar do velho”, conta Iran.
Para Antonio Claudio Francisco, 49, administrador do lar, José Lourenço tem diversas características que indicam que ele foi uma pessoa errante e viveu na rua.
“Ele tem dificuldade de confiar nas pessoas, é arredio, o que é sinal de que pode ter sofrido violência na rua. Não aceita cuidados médicos, não aceita regras e tem tendência à acumulação de coisas, como se se preparasse para o amanhã, para viver um tempo em que não terá abrigo nem comida.”
A instituição irá providenciar uma nova documentação para José Lourenço - que não tinha nem RG quando foi encontrado- para que seja possível que ele faça exames médicos e tratamentos.
Em uma análise preliminar, a psicóloga da casa de repouso, Lilian Ludmila Betete, explica que ele tem algum grau de demência. “Seu Lourenço transita entre a realidade, contando situações com muitos detalhes, e o delírio, em que imagina coisas.”
Para Hiderlange Alves, 52, que também já reviu o pai, é muito possível recuperar a relação entre eles. “Fiquei emocionadíssima ao reencontrá-lo. Um misto de alegria e tristeza. Alegria por vê-lo, mas muita tristeza por saber tudo o que ele passou nesses 30 anos de separação. Tenho certeza de que podemos recuperar o tempo perdido.”

Andanças
O pai andarilho lista com detalhes ter circulado por pelo menos 13 Estados: RS, SC, PR, SP, RJ, MG, BA, CE, PE, RO, PA, MT e MS.
“Em Rondônia trabalhei em restaurante, no Pará cuidei de hortas e no Rio eu sofri muito, me machucaram demais lá. Lá não volto”, diz.
Quando a reportagem insistia em obter mais detalhes sobre a violência que diz ter sofrido, José ficava arredio e interrompia a entrevista.
“Você por acaso gosta de lembrar seus sofrimentos? Você acha bom falar de coisa ruim que teve de passar?”
Assistente social da casa, Nilmar Humberto Donini afirma que o José Lourenço reage como alguém não acostumado a dividir a vida, a interagir e a conversar.
“A cabeça dele está a mil neste momento e precisamos tratar de sua saúde mental. É a família se reaproximando e trazendo lembranças, é um lugar novo de moradia e o problema da visão.”
A irmã de José Lourenço, Maria Inês Alves, 77, diz que ainda se pega incrédula por ter conseguido reencontrar o irmão depois de tantos anos.
“Desde menino ele dizia que uma hora iria sumir no mundo e assim ele fez. Sempre tive a esperança de que ele iria reaparecer e hoje vivo essa alegria. É nova chance para a família”, afirma.
O filhos criaram um grupo em uma rede social chamado “nosso pai”. O objetivo deles é planejar o futuro após o reencontro e levar José Lourenço para um sítio, na região de Ibiúna, onde ele poderia ter uma plantação, cuidar de bichos e ter um sossego.
“Não posso dizer que minha mãe foi feliz no casamento com meu pai, por diversas razões, mas sinto claramente que ela quer que os filhos fiquem ao lado dele, deem assistência a ele”, conta Iran.
Uma preocupação da família é que o pai, repentinamente, renove aquele antigo desejo de vagar pelo mundo e abandone a casa dos idosos onde está. Os funcionários do local não podem detê-lo, apenas avisar os parentes. 

FOTO: Adriano Vizoni/Folhapress