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Apelidos - Ultima parte

REPUBLICA DOS APELIDOS – ULTIMA PARTE
13 de julho de 2015

Finalmente, após quatro semanas falando da Capital Mundial do Apelido, chegamos ao quinto e último capítulo. Esperamos ter contribuído para os estudiosos do futuro, principalmente antropólogos e sociólogos, no sentido de associarem os apelidos às condições ambientais, sociais, culturais, econômicas e associativistas dos primórdios de Jales. É incrível como Jales recorreu aos animais, de todas as espécies, para apelidar seus moradores pioneiros. Uma rica constatação para estudos. Outro detalhe marcante é a criatividade nos apelidos. Pregar nas pessoas um nome que não é a delas é um exercício lúdico, de ampla aceitação social.
 
E vamos aos últimos apelidos: MANÉ BEICINHO, apareceu em Jales, em 1960, trazido pelo cunhado Mario Afonso de Almeida, contador do Banco da Lavoura de Minas Gerais. Por ter o beiço saliente, Mané foi carimbado e lacrado com o MANÉ BEICINHO, que pegou igual praga. Sósia perfeita do ator francês Jean Paul Belmondo, era caçado pelas moças como galã de novela ou cantor sertanejo. Jovem urbano, criado em São Paulo, MANÉ BEICINHO introduziu na Jales caipira muitos valores das grandes cidades, inclusive no gosto musical, através da bossa nova, Foi casado com a professora Maria Maximiano, com quem teve o filho Mário, Xerox total da imagem paterna. Que Mário se orgulhe, para sempre, do pai inteligente e culto, querido e admirado pelos amigos. BASTIÃO RISADA,homenageado com um artigo exclusivo, titulado ÁGUA DE POÇO, o poceiro Sebastião, de riso incontido, chegando próximo do desmaio quando disparava rir, virou atração turística na cidade. O pessoal descobria onde ele estava furando poço e levava a visita para vê-lo gargalhar alucinadamente. Bastava pedir para rir que ele disparava. O apelido BASTIÃO RISADA foi um dos mais apropriados na série Republica dos Apelidos! CAREQUINHA era o apelido de Alcides, alfaiate da famosa Alfaiataria ao Centro da Moda. Bom de papo e grande gozador. Saudades...ALEMÃO foi o apelido de meia dúzia de jalesenses. Vou ficar como alemão mais famoso, registrado Wilson de Souza, filho de Belmiro de Souza (Casa do Rádio) e Jupira de Carvalho, de família tradicional de pioneiros. Alemão foi sempre um jovem moderno, estudou no ginásio Estadual de Jales, jogou um bom futebol no Independência, depois virou piloto da aviação comercial, cruzando os céus do Brasil durante muitos anos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CHUMBADA, nome de Carlos Roberto de Paiva, professor de educação física e mestre em natação, considerado o melhor preparador físico de nadadores da cidade, sempre foi um jovem ativo e participantes das atividades esportivas e sociais da cidade. Filho de Dona Dinha e sobrinho do Professor Neto. PINDUCA, apelido de Celso Soares de Carvalho, irmão de Célio Soares de Carvalho, a melhor memória de Jales. Voltaremos a falar de PINDUCA em próximo artigo. BARRIGA foi um apelido que Aladim José Ribeiro, proprietário da Agência de Revistas Mariza, lutou para não pegar, mas não teve jeito. Jales é implacável com os apelidos. A democracia jalesense do apelido pega rico, pobre e remediado. Ninguém escapa da cultura do apelido que desde sempre tomou conta de nossa cidade. E BARRIGA teve que se curvar a vontade do povo, aceitando esse carimbo revelador de protuberância abdominal. ZÉ CABELO foi nosso bêbado oficial nas décadas de 50 e 60. Uma figura querida e aceita pela cidade, que cuidava dele com muito carinho, não deixando faltar onde dormir, comida e até um pouco de sua bebida favorita. CHUPETA, filho de Maroto e grande amigo de Marco Poletto, com quem tramou grandes artes na literatura jalesense, foi uma das pessoas mais éticas e de princípios, segundo meu sobrinho Marco, que ele conheceu. Um homem culto, excelente pai, amigo e professor de história. CHEBRÉU é um apelido sem tradução. É uma expressão da época, redução de chebrebeu, quando diziam algo que acabou, evaporou, sumiu. Eu mesmo perguntei a CHEBRÉU, quando ele trabalhava na oficina, qual o significado de seu apelido, respondendo que não fazia a menor ideia, mas não se importava porque o apelido tinha virado nome. Até seus familiares o chamavam de CHEBRÉU.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Usava um chapéu com a frente amassada, lembrando o filme “Os anjos da cara suja”, grande sucesso da década de 50. De longe, dava para reconhecer CHEBRÉU pelo chapéu, sua marca registrada. ZOIÚDO foi um craque no basquete. Como tinha os olhos grandes,o apelido caiu como uma luva. Sua irmã casou com Paraná, grande estrela do basquete brasileiro que passou por Jales. BULÉIA era o apelido de Moacir Paz Landin. Como Moacir sempre foi um grande gozador, ninguém ficou sabendo a origem de apelido tão inusitado. E não tem nada a ver com “boléia” de caminhão. BOCA RICA foi o apelido de João, funcionário da Coletoria Estadual. Casado com Catarina e pai de Izildinha, BOCA RICA tinha a boca grande e rica em dentes de ouro, opção odontológica da época. E ele aceitava numa “boa” o apelido, porque vivia sempre bem humorado. FIM DE LINHA era só o que faltava na coleção de apelidos jalesenses. Como veio de Santa Fé, cidade que chamávamos, jocosamente, de “fim de linha”, pegou o apelido assim que chegou. Um dos maiores violonistas que conheci na vida, dava um show de violão que deixava todo mundo encantado. Sempre com o violão nas costas, onde parava virava uma rodinha. Era irmão de Orival e filho de uma grande professora de corte e costura. E um dos grandes amigos que tive na vida. PÉ, sim, apenas PÉ, apelido de Lazinho, de tradicional família pioneira. Irmão da mãe de Jarbas Zuri, de Ataíde, mais uma dúzia de irmãos, PÉ foi também de nossa invencível turma dos córregos de Jales. DITO PRETO foi um grande alfaiate. Tomava umas e outras, mas trabalhava direitinho, levando uma vida normal. Com o aprofundamento de sua opção pelo álcool, tornou-se, ao lado de ZÉ CABELO, a dupla de bêbados oficiais da cidade. Sempre tinha alguém que cuidava de DITO PRETO, mas sempre destaco Jair Mendes, uma pessoa rigorosamente do bem, que sempre o recolhia das ruas. CAROÇO foi um artista popular, perfil artesanal, sempre nas ruas, emocionando a cidade. Músico de elevada categoria, CAROÇO tem um apelido que ninguém consegue explicar. CABURÉ foi um dedicado funcionário da prefeitura. Sei que o apelido é  meio esquisito, mas sempre soube que CABURÉ foi uma pessoa muita querida na cidade. CHICO VÉIO foi um pintor de paredes que limpou e enfeitou Jales inteira. Numa época que os apelidos tinham vários significados, talvez o VÉIO seja uma referencia a seu cabelo ou rosto. ESCURINHO foi o maior sambista jalesense de todos os tempos. Montou uma escola de samba vencedora, colocando na bateria só “cachorro grande”. Irmão do Prof. Costa Figo, de Mazinho e outros, Escurinho era de uma família do samba, da alegria e da amizade.
               
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VOVÓ era motorista da prefeitura, pilotando o caminhão de água que molhava as ruas da cidade, vencendo a poeira quase insuportável que se formava nos períodos secos. Como tinha cabelos brancos, embora ainda jovem, pegou esse apelido de VOVÓ, que nunca mais o deixou sozinho. Também não sei o nome de VOVÓ! MESTIÇO foi maquinista da locomotiva da EFA. Figura muito conhecida e popular MESTIÇO não tinha rosto de mestiço, mas pegou um apelido que colou mais que concreto preparado. ZÉ PRETO, homem trabalhador e bem relacionado, só era chamado pelo apelido completo. Pai de Brasilino, oficial maior do Jornal de Jales, ZÉ PRETO deixou muitos amigos. CAFUBIRA foi um grande goleiro da Ferroviária. Alguns dizem que o apelido nasceu na onda da coceira famosa, quando mais da metade de Jales pegou a tal de cafubira, uma coceira pior que sarna. JOAQUIM DOCEIRO e seu carrinho gigantesco tornaram-se parte integrante da paisagem de Jales. Sempre posicionado em pontos estratégicos, tinha movimento de clientes fixos, que jamais deixavam de comprar seus doces. Pai de minha amiga Sidnéia, que aguentou muitas chateações de amigos encapetados como eu, Seu JOAQUIM DOCEIRO é uma personalidade inesquecível na história de Jales. TIJOLO era o coordenador do jogo de baralho nos clubes da cidade, na década de 50. Dotado de um senso de humor inigualável, contava todas as histórias dos bastidores do jogo jalesense. Foi para Palmeira D’Oeste, onde sempre o encontrava nas ruas, vendendo bilhetes da loteria federal. E nas compras de bilhete, aproveitava para roubar dele mais uma das histórias que viveu em Jales. SUNUNGA foi garçom e funcionário do Banco do Brasil. Muito popular e querido, transitou em todas as rodas da sociedade jalesense. SOLINHA da velha guarda jalesense, era funcionário da Selaria de Ozil Rezende. Acredito que SOLINHA seja o diminutivo de sola, palavra componente de seu campo de trabalho. SOLINHA foi uma das pessoas mais conhecidas da Jales pioneira. CALÉ, filho de Seu Luiz e Odete Scaramuzza, recebeu esse bendito apelido em sua natural infância arteira. Uma pessoa muito afetiva, sempre amigo de todo mundo. CATUABA, radialista carimbado com esse apelido não é fácil. Mas CATUABA sempre foi um grande profissional e seu apelido o acompanha com a máxima dignidade. BOLACHA foi tintureiro, trabalhando na Tinturaria de Alencar, onde fez muitos amigos. De personalidade muito jovial, contaminava com sua alegria os ambientes por onde passava. GÃO é o nome de Márcio, irmão de Mauro Ferraz. Não me pergunte o que é GÃO, porque não faço a menor ideia. TIÃO CAVEIRA é uma figura inesquecível de minha infância. Como não tinha rosto de galã de cinema, muito pelo contrário, sapecaram nele esse apelido de TIÃO CAVEIRA, contra o qual lutou algum tempo, mas foi vencido pela insistência dos amigos. O grande problema do apelidado é que os responsáveis pelo apelido são seus melhores amigos. E como brigar com os melhores amigos? FININHO foi um dos apelidos de José Salviano. Outro apelido, que eu mais conheci foi TIZIU. Segundo Célia, sua esposa, filha da imbatível D.Nena, o apelido de Tiziu emudeceu e só ficou o FININHO. NENEINHA, irmão do radialista, escritor e ex-vereador Osmar Rezende, filho do saudoso Tonho da Basilia, salvo pelo meu pai, quando foi mordido por uma cobra Urutu Cruzeiro. A família de NENEINHA foi uma das mais amplas e importantes da Jales pioneira. PICASSO, filho de Jorge Fotógrafo, herdou o apelido do mais famoso pintor do século XX, Pablo Picasso, embora eu não saiba se refere-se ao pintor ou alguma referencia pejorativa. Só o apelidado ou quem colocou o apelido podem explicar tão insólito apelido. Finalmente, de propósito, o último apelido, porque é exatamente o primeiro apelido que ouvi na Jales que vivi. BUGRINHO era o apelido de uma pessoa simples, rosto indígena, sempre embriagado, que ouvia as crianças, como se fossemos gente grande. Era alimentado pela caridade pública, depois de perder as forças para o trabalho braçal, quando circulava com a enxada nas costas, de casa em casa, perguntando se tinha quintal para limpar, ou “capiná”, como se dizia no final da década de 40 e começo da década de 50. Tudo que a molecada perguntava, ele respondia, parecendo mais uma criança na roda. Com o tempo, foi aumentando o consumo de bebidas, começando a dormir nas calçadas tórridas da Jales tropical. Imagine só a vida de um bêbado num meio dia de dezembro, dormindo a céu aberto em Jales? Nos dias de chuva ou frio, a cidade pedia para a polícia guardar BUGRINHO na cadeia, onde recebia roupas da população, ficando agasalhado e se alimentando regularmente. A cadeia, nos últimos dias de BUGRINHO foi a pensão que as pessoas piedosas de Jales pediram a Deus. Mas como não podia permanecer preso muito tempo, porque estava recolhido sem cometer delitos, apenas com finalidade social, era sempre solto e ai começava o novo ciclo da cachaça e de cair nos terrenos baldios de Jales. E uma noite fria, jamais esqueço, a notícia que abalou Jales: BUGRINHO amanheceu morto, na Rua Oito, perto da Estação da E.F.A. BUGRINHO foi um apelido que virou nome e um ser humano que ajudou humanizar as crianças de Jales, com as histórias que contava, revelando uma vida difícil para quem não conheceu a família. BUGRINHO, primeiro apelido que ouvi, ultimo apelido que encerra a série de cinco artigos sobre esse hábito jalesense de reduzir o nome das pessoas, tornando-se a Capital Brasileira do Apelido!
 
Roberto Gonçalves (é  Cientista Político) 
roberto.motivacao@gmail.com