VESTIBULARES

Análise do vestibular da Fuvest

E mais uma Fuvest passou na vida da gente. De novo, na minha modesta opinião, ela veio cheio de charme, inteligente e habilidade. Mostra que o aluno e a aluna que queira cursar na famosa Universidade de São Paulo não pode ficar inerte aos grandes temas e principais conceitos do mundo contemporâneo.
Neste ano, a prova pode ser vista a partir de dois olhares. De um lado, podemos enxergar uma prova fácil, mas ela também pode ser analisada com alto nível de dificuldade. Mas, como pode isso?
Explico e com exemplo.
Na questão 84 da versão “V” da prova, era apresentado ao candidato dois mapas com dados sobre a agricultura familiar e a não familiar. No primeiro mapa, destacava-se a distribuição da quantidade de estabelecimentos rurais e, no segundo, a área dos respectivos estabelecimentos. Logo, percebe-se que a questão traz ao menos quatro temas relevantes: produção agrícola, questão agrária, cartografia e comércio exterior. Esses levantamentos precisam ser identificados pelo aluno para conseguir responder uma questão que, de início, parecia ser bem simples.
Ao se deparar com esse tipo de questão, o estudante precisa de uma leitura criteriosa e pormenorizada das alternativas. Uma delas, por exemplo, poderia induzir o aluno ao erro porquê os professores sempre destacam que a agricultura não familiar, ou seja, aquela que tem a finalidade comercial, tem sua produção destinada ao mercado externo com relevância para as commodities. Porém, nesta mesma alternativa, é descrito que essa modalidade agrícola concentra o maior número de estabelecimentos rurais, quando, na verdade, ela concentra a maior área agriculturável ocupada.
Portanto, a questão se torna fácil quando o futuro Uspiano domina os quatro temas que citei anteriormente, além de conseguir dominar uma leitura criteriosa das alternativas apresentadas. Dessa forma, a questão valoriza aquele que estudou e se debruçou com afinco nos livros e apostilas.
Outra questão que também chamou a atenção foi a 81 também da versão “V”. De uma maneira muito sagaz e perspicaz, a Fuvest deu um “chega pra lá” nos questionadores da esfericidade da Terra e abordou o tema com muita inteligência e um leque enorme de conceitos. Certamente, foi uma das questões mais difíceis da prova inteira.
Além dessas duas questões, a prova ainda abordou temas bem relevantes como a globalização, o ciclone tropical de Moçambique, biomas terrestres, febre amarela no estado de São Paulo, desertificação, geopolítica atual do Brasil e geologia.
A geografia também apareceu em outras disciplinas. Porém, uma questão interdisciplinar com Biologia chamou bastante atenção. A questão 50 da prova “V” tratava das queimadas da Amazônia e as consequências biológicas e geográficas da derrubada da floresta. Exigia do aluno o conhecimento sobre a biodiversidade, a fertilidade do solo e as condições térmicas a longo e curto prazo após a ação antrópica. Essa também pode ser classificada com alto nível de dificuldade.
Cabe destacar uma decisão muito acertada da Fuvest: a prova, pela primeira vez, estava colorida. O que pode parecer um mero zelo ou melhor apresentação gráfica, na verdade é uma contribuição positiva para o vestibulando. Afinal, as cores ajudam na interpretação de uma imagem, de um gráfico e do mapa.
Em relação ao aumento ou queda da nota de corte, fica muito difícil afirmar qualquer tendência depois que a USP dividiu as vagas em PPI, egressos de escola pública e ampla concorrência. É fato que a prova teve um nível de dificuldade menor do que no ano anterior. Mas, não há como cravar uma tendência da nota de corte.
Enfim, mais uma vez, parabéns a Fuvest por valorizar sempre o trabalho do professor em sala de aula e do aluno nos seus estudos.

Eduardo Britto 
(é Professor de Geografia do Colégio e Curso Objetivo de São Paulo, graduado pela UNESP, especialista em Gestão Ambiental pela UFSCAR e Mestre em Ensino de Ciências pela UFMS)
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