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Amnésia e abandono

por Lucas Rossafa
11 de agosto de 2017

O que se faz em nove meses? É o período em que os pais aguardam ansiosamente pelo fim da gestação do bebê? É o tempo para um atleta se recuperar de uma cirurgia de ligamento cruzado no joelho? É suficiente para traçar estratégias de reconstrução de alguma instituição? Em quase um ano, é possível adquirir noções básicas de como lidar com o sentimento de perda e ser minimamentecaridoso?

            Diante de tantas indagações, é desagradável ter de informar que, após o trágico acidente aéreo, que matou 71 pessoas no voo da Chapecoense para Medellín, em 29 de novembro de 2016, as vítimas que perderam seus filhos, maridos, pais e irmãos ainda não encontraram um respaldo digno do clube. E mais: quando o tema é solidariedade, é preciso apagar da memória a CBF e a Conmebol, as duas associações mais importantes do futebol sul-americano.

            Enquanto o amparo mundial se manifestou nos amistosos diante de Barcelona e Lyon, ambos na Europa, conclui-se que, quem ficou, está cada vez mais abandonado. Tanto é que os enlutados criaram uma Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense (AFAV-C) e contrataram advogados cíveis e trabalhistas para lutar por aquilo que acreditam ter direito. Não se trata de vitimismo, mas o mínimo que se espera de Plínio David de Nês, o Maninho, presidente da equipe catarinense, é um pouco de compaixão e apoio.

            No desespero da solidão, algumas famílias aceitaram receber o salário dos que faleceram por dois anos. No entanto, o que será embolsado diz respeito àquilo registrado em carteira, muito inferior ao verdadeiro, uma vez que, no futebol, tambémse remunera o direito de imagem. De modo irônico, é exatamente o que vem sendo explorado incessantemente pelo clube como homenagem às vítimas.

            Depois de nove meses da desgraça, é obrigação investigar a fundo a companhia LaMia, empresa responsável pelo voo. Até agora, pouco se ouve e lê sobre isso. Seguro do avião vencido, falta de combustível, planejamento irresponsável e vidas submetidas à imprudência humana não foram – e nunca serão – digeridas. A forma pela qual tratam o assunto é semelhante à leitura de um livro monótono e tedioso: o que passou é, literalmente, passado. Não há questionamentos e o foco está sempre no que virá pela frente.

            A Chapecoense tem sabido explorar o marketing da tragédia, o que não é errado. Afinal de contas, o clube precisa continuar e a publicidade é umas das maneiras para mantê-lo em evidência. Hoje, o time da pequena cidade do oeste de Santa Catarina é reconhecido internacionalmente e, cá entre nós, o segundo time de todos. O lado antipático desta situação é que, em vez de solucionar as questões jurídicas para trazer um pouco de alívio – ou menos decepção – aos familiares, os diretores tratam os verdadeiros campeões, os sonhos perdidos e a dor eterna como algo sem valor.

            Ao mesmo tempo, é necessário saber valorizar a memória, um dos principais defeitos do ser humano. O passado não pode ser completamente esquecido. Se amnésia fosse adquirida por livre e espontânea vontade, a Associação Chapecoense de Futebol seria o maior exemplo do país.