domingo 05 abril 2020
Editorial

Amassando barro

Embora tenha sido quatro vezes governador do principal estado da Federação e, cacifado por esse poder de fogo, disputado duas eleições presidenciais, Geraldo Alckmin nunca perdeu a vinculação com Pindamonhangaba, onde, ainda rapazinho, foi vereador e prefeito.
Em suas andanças pelo Estado de São Paulo fazendo inaugurações ou participando de solenidades, Alckmin, ao usar a palavra, se valia de alguns bordões para tornar mais claros seus pontos de vista. 
Um deles, de nítido sabor popular inspirado em suas raízes de homem do interior, era recorrente. De acordo com o então governador, político que se preza   tem que tirar o pé do chão, amassar barro. 
Ainda que seus adversários o considerassem sem carisma, tanto que as más línguas o apelidaram de “Picolé de Chuchu”, o fato é que, pelo sim ou pelo não, ele sempre se deu bem nas urnas.  
Estas referências iniciais ao estilo Alckmin servem de introito a um fato da maior relevância na área política — é ano de eleições municipais, ensejando ao povo a escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. 
Ainda que alguns afobados, talvez ainda sob o impacto da eleição presidencial de 2018 que alçou o capitão reformado Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, afirmem que as redes sociais terão papel preponderante nas disputas municipais, observadores mais atentos não assinam embaixo dessa previsão. 
Precavidos, tais analistas argumentam que realmente as   redes sociais se incorporaram ao cotidiano de cada brasileiro, mas eleição municipal é outro departamento, algo muito diferente do pleito presidencial, especialmente na disputa por cadeiras nas câmaras municipais. 
Em primeiro lugar, ao contrário da disputa pela prefeitura, restrita a três ou quatro pleiteantes, o embate para vereador envolve 70, 80 ou até 100 concorrentes em uma cidade como Jales, onde cada partido pode lançar até 15 candidatos, dos quais três obrigatoriamente serão mulheres.
Ou seja, candidato a vereador tem que ter proximidade com o eleitor, tem que ir para o corpo-a-corpo, tem que olhar nos olhos, apertar mãos, reforçar laços de amizade ou familiares, assumir compromissos com reivindicações deste ou daquele bairro, abraçar causas comunitárias. 
Ademais, eleitor é normalmente desconfiado e não acredita em candidato que, através das redes sociais, acena com promessas inexequíveis como se fosse um vendedor de terreno na lua. 
Como a primeira sessão do último ano da atual legislatura (2017-2020) será amanhã, dia 3 de fevereiro, é bom que os candidatos à reeleição e todos os outros que querem uma cadeira no Legislativo façam o que Alckmin aconselhou: tirem o pé do chão, amassem barro.

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