Editorial

Afobado come cru

Ninguém aguenta mais. Esta é a frase recorrente, em tom de desabafo, ouvida em qualquer conversa de 10 entre 10 brasileiros a propósito da quarentena deflagrada a partir do momento em que a Organização Mundial de Saúde reconheceu a existência de pandemia do coronavírus em termos planetários.

A primeira frase do parágrafo anterior, repetida à exaustão, reflete, de alguma forma, o estado de espírito da população e os estragos provocados no mundo dos negócios.

Em Jales, não é diferente. Tanto que assim que surgiu uma brecha no decreto estadual editado pelo governador João Doria, o prefeito Flavio Prandi Franco (DEM) tornou-se o primeiro da região a autorizar, com restrições, o funcionamento do comércio.

Há 10 dias, sob pressão de empresários de todos os níveis, o Centro de Contingência do Covid-19, constituído por médicos, cientistas e pesquisadores, houve por bem sugerir ao governo estadual um processo de flexibilização um pouco mais amplo, simbolizado por cores, estabelecendo critérios para a ampliação da abertura.

Jales ficou na faixa 2, de cor laranja, que libera o funcionamento de concessionárias de veículos, imobiliárias, escritórios, comércio não essencial e shopping centers, tudo com restrições.

Mas, houve insatisfações em setores do empresariado local segundo os quais nossa cidade deveria estar na faixa amarela, que englobaria bares, restaurantes, academias e salões de beleza, em face da situação estar sob controle.

Porém, independentemente da justa reivindicação, nunca é demais lembrar que, segundo os estudiosos da Covid-19, apesar de todos os esforços, a curva de contaminação do vírus ainda é ascendente. Ou seja, não chegou ao pico, o que deverá acontecer entre os dias 15 e 20 de junho.

Sob este aspecto, vale recordar dois textos de advertência publicados nesta mesma página. Um, em 5 de abril, de autoria do padre Eduardo Lima, criador da Missão Univida, que recruta estudantes universitários no âmbito da Diocese de Jales, principalmente da área de saúde, para trabalhos em lugares ermos do país, inclusive Amazônia. Outro, em 26 de abril, do professor mestre Eduardo Britto, do Colégio e Curso Objetivo/São Paulo.

Os dois Eduardos, com palavras diferentes, convergiram no diagnóstico. O sacerdote alertou: “nas cidades pequenas, do interior, como é a maioria das que compõem a Diocese de Jales, as pessoas tendem a imaginar que o vírus não vai chegar até aqui, desrespeitando a quarentena e ignorando o isolamento social”.

O professor, esgrimindo números do Mapeamento da Unesp, onde estudou, lembrou o alto risco que corre Jales, centro de uma região de 22 municípios, cortada pela rodovia Euclides da Cunha, que cruza com a Elyeser Magalhães (rumo a Araçatuba) e se estende até a Washington Luís (sentido São José do Rio Preto),além de ser limítrofe a estados vizinhos.

Em resumo, todos precisamos retomar nossas vidas. Mas, com calma. A sabedoria popular ensina que “afobado come cru ou queima a boca”.


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