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A tragédia de Brumadinho e o bobo da corte

Editorial
03 de fevereiro de 2019
Na última quinta-feira, dia 31 de janeiro, Dom Demétrio Valentini, bispo emérito de Jales, completou 79 anos, 34 dos quais dedicados ao povo da diocese.  A comemoração teve direito a missa concelebrada na Catedral de Jales, no mesmo dia em que a comunidade católica saudava o 3º aniversário de ministério  episcopal de seu sucessor, Dom Reginaldo Andrietta.
Por triste coincidência o aniversário natalício de Dom Demétrio coincidiu com clima triste do caso de Brumadinho decorrente do rompimento de barragem sob a responsabilidade da Vale, que ceifou um número ainda incalculável de vidas.
O leitor tem todo o direito de perguntar: o que tem a ver Brumadinho, onde o mar de lama varreu tudo e todos, com o bispo emérito de Jales?
Diretamente, nada. Mas, historicamente tudo a ver, como será demonstrado nos próximos parágrafos, especialmente por aqueles que têm boa memória.
No dia 6 de maio de 1997, o governo Fernando Henrique Cardoso, que iniciou o processo de privatização de estatais no país, leiloou aquela que era considerada a principal empresa estratégica brasileira no ramo da mineração e infraestrutura.
A entrega da Companhia Vale do Rio Doce, como era chamada na época, à iniciativa privada, foi precedida por um acalorado debate em que se envolveram os próceres do governo e os líderes dos movimentos sociais. 
Entre outros motivos, os opositores da privatização argumentavam que a Vale estava sendo vendida a preço de banana, por R$ 3 bilhões e 300 milhões, quando somente suas reservas minerais eram calculadas em mais de R$ 100 bilhões em valores da época.
Além dos líderes dos movimentos sociais, um dos maiores críticos da privatização da Vale era Dom Luciano Mendes de Almeida, então arcebispo de Mariana, onde atuava mais fortemente a mineradora, alertando que aquela transação provocaria, mais cedo ou mais tarde, impactos no meio ambiente ou eventuais tragédias.
Alerta profético. Há três anos, faltou pouco para que Mariana fosse varrida do mapa, com mortos, feridos e, como sequelas, centenas de pendengas judiciais entre a companhia e os sobreviventes, além dos familiares dos que morreram soterrados.
Mas, voltemos no tempo. Quando os ânimos se acirraram em torno do processo de privatização, Sérgio Motta, ministro das Comunicações e homem forte do governo FHC, deu declarações atribuindo a movimentação do arcebispo de Mariana a motivações menores. Segundo ele, o religioso estava contra porque não queria perder a “boquinha”, isto é, contribuições da Vale em forma de ofertas, enquanto empresa estatal, ao arcebispado.
A resposta não veio de Dom Luciano, mas de Dom Demétrio Valentini, então coordenador das Pastorais Sociais da CNBB. Entrevistado pelo jornal “O Globo” sobre as declarações do poderoso Sérgio Motta, o bispo de Jales proferiu, a título de resposta, uma frase que virou chacota em nível nacional: “aquele ministro é o bobo da corte”.