Perspectivas

A sociedade do cansaço

Você tem se sentido cansado? Desanimado? Sem forças nem motivação? Exausto? Bem-vindo à Sociedade do Cansaço!

A expressão é do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Ele escreveu um ensaio com este nome. A obra vem recebendo atenção especial dos intelectuais brasileiros, mas precisaria ser lida por todos.

Han é um crítico feroz da sociedade hiperconsumista e egoísta, onde o indivíduo é seu próprio algoz porque se explora de uma forma avassaladora. Este ser humano gosta de ser aquele tipo de pessoa que se sobrecarrega de afazeres e se sente culpado quando não está produzindo.

De acordo com esse pensador, os indivíduos da Sociedade do Cansaço acreditam que não ter tempo para viver intensamente o presente e apreciar o momento é, sim, a realização de uma vida pessoal/profissional. Adoram expressar isso com frases do tipo “nossa, estou exausto”, “tenho tanta coisa pra resolver”, “não tenho tempo pra nada”.

E um dos movimentos que mais aumenta esse “buraco negro” do esgotamento físico e mental é o excesso de positividade que a sociedade pós-moderna se autoimpôs. Tudo é resumido em: “Vai lá, você consegue!”

Há, em todas as esferas da sociedade contemporânea, um discurso onde predominam as mensagens de ação produtiva e as ideias de que todas as metas são alcançáveis. Ou seja, você não será um vencedor apenas se não quiser.

O filósofo brasileiro Leandro Karnal costuma fazer um comentário impactante sobre este pensamento: “O pico do Everest está cheio de corpos de pessoas que acreditaram que era só querer chegar lá que conseguiriam”. Comentário mórbido? Não! Realista.

Han exemplifica este positivismo exagerado – e negativo - com frases como “Yes, we can”, usada na campanha presidencial do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2008. E o slogan da Nike, “Just do it”.

Embora as duas personagens – Obama e Nike – tenham sido vitoriosas nas áreas que escolheram atuar, claro que não bastou apenas o querer de cada uma. Houve muito trabalho e muito dinheiro envolvidos até o sucesso.

Ao mesmo tempo, na ânsia de se diferenciar da maioria e mostrar a melhor vida possível nas fotografias das redes sociais, as personagens da Sociedade do Cansaço repetem o mesmo padrão de comportamento e atingem o que Han chamou de “inferno do igual”.

Nesse tipo de comunidade sobram doentes com Síndrome de Burnout (distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema), a compulsão alimentar e o vício em entretenimentos (jogos de computador ou maratonas de séries). Sem contar os depressivos e suicidas.

Qual a saída? Han acredita que o sistema acabe desmoronando por si mesmo. Terá um curto-circuito. E depois, talvez, se reconstrua com novos valores. Será?

Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista e professora. Empresária no ramo da Educação em Araçatuba)


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