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A romaria das senhorinhas de canela fina!

Por Márcio Rodrigues
26 de agosto de 2018
Márcio Rodrigues
Provavelmente, o que te motiva e te inspira não são as mesmas coisas que fazem minha alma vibrar. Entretanto, arrisco dizer que você concordará comigo quando afirmo que as mulheres brasileiras têm um talento especial para a superação de suas mazelas e fraquezas. E a Romaria Diocesana de Jales é um grande exemplo.  
Década após década temos visto a fidelidade dessas pessoas a seus princípios religiosos, que se expressa na caminhada realizada num domingo de sol fervilhante. Não caminham por obrigação, mas sim, por devoção! Peregrinam ombro a ombro com homens, crianças, jovens e adolescentes, em direção a casa daquela que foi elevada aos céus. 
E com que disposição colocam-se em marcha! E essas mulheres, e nesse caso refiro-me apenas as senhorinhas de canela fina, colocam-se como romeiras porque suas vidas assemelham-se a um eterno peregrinar. Trazem estampados em seus rostos, as cicatrizes do tempo, mas em seu olhar, a esperança da vitória em Cristo. 
São essas mesmas mulheres que peregrinaram durante anos, para sustentar seus filhos, trabalhando nas fazendas de café e algodão, tão abundantes em nossa região até bem poucas décadas. Eram elas que, sustentadas por corpos franzinos, em sua viuvez ou em seu abandono marital, jogavam-se nos caminhões de boias-frias, enfrentado as gélidas madrugadas, com o coração dolorido por deixar seus rebentos numa creche, privilégio que nem todas tinham.
Quantas e quantas madrugadas, essas mulheres de Jales e região, despertaram solitárias, passaram seu café no surrado coador de pano, enquanto ouviam o velho Chico Picuá falar a hora de 2 em 2 minutos? Para muitas, o radinho era a única companhia, e uma forma de não perderem a hora de partida do caminhão de birolos! Já eram romeiras! Sempre foram romeiras! 
Senhorinhas de canela fina a arrastar seus pesados fardos de algodão, debaixo de sol, chuva e sereno. Em muito me faziam lembrar Maria, aquela que foi elevada aos céus: sofredora, mas não triste; franzina, mas nunca, fraca! Essas mulheres das quais vos falo, entre as quais, com muito orgulho coloco minha falecida mãe, eram e ainda são, fortalezas de fidelidade aos princípios familiares; são flores que teimam em brotar no seio de uma sociedade que se desertifica.
E essas senhorinhas são as primeiras a aplaudir Dom Reginaldo Andrietta, quando o bispo se levanta em defesa da vida e da família, ao condenar a prática do aborto, ali, na praça da Catedral, diante da imagem da mulher coroada de estrelas. Como não deixar-se seduzir por tamanho exemplo de força que já não brota do físico, mas tão somente, da alma? Essas mulheres têm muito a nos ensinar sobre família, abnegação, fé e valores. 
Os costumes e a cultura são mutáveis com o tempo, mas os valores, aqueles sobre os quais se firmaram os alicerces da sociedade, não podem mudar. Como poderia uma árvore centenária voltar-se contra suas próprias raízes, cortá-las e teimar em permanecer de pé? Impossível! Quantas crianças e adolescentes estão confundindo conhecimento com sabedoria? Por terem frequentado a escola por mais tempo que seus genitores, acreditam que são mais sábios que seus pais e avós, desprezam seus conselhos, zombam de suas crenças e repudiam seus valores. Menosprezam a sensibilidade, ao analisar temas como família, aborto e eutanásia, em prol de uma resposta mecanicista.
 Pra esses seres humanos, ainda privados da experiência de vida, o deus Google é o senhor supremo de todas as respostas. As respostas da máquina não podem substituir as sábias palavras de um coração forjado na experiência de vida. Não desprezemos o alicerce sobre o qual fomos criados: se eu quero conselhos sobre medicina, procuro um médico; se quero conselhos religiosos, procuro um sacerdote; mas se eu quero conselhos sobre valores ou sobre família, eu procuro uma senhorinha de canela fina, eterna peregrina do amor! 

MárcioRodrigues
(Historiador)